quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

La La Land: Cantando Estações


Nada melhor para tirar a poeira e as teias de aranha do Set Sétima do que falar sobre um filme que trata sobre… cinema! La La Land: Cantando Estações (La La Land/EUA/2016) é um romance que vem arrebanhando fãs em todo mundo e surpreendendo pela quantidade enorme de premiações já recebidas e as expressivas 14 indicações ao Oscar, incluindo o de Melhor Filme.
A trama conta a história de Mia (Emma Stone), atendente de uma lanchonete localizada nos estúdios da Warner, em Hollywood, que almeja a carreira de atriz, e Sebastian (Ryan Gosling), um pianista extremamente saudosista do jazz de raiz.
O longa não seria muito mais que uma mera comédia romântica adocicada se não fossem três elementos perfeitamente trabalhados: a nostalgia em relação à era de ouro do cinema (principalmente os musicais), a homenagem a Los Angeles e o desfecho ― sobre o qual não falarei nada para não estragar a experiência de quem ainda não teve a oportunidade de ver, mas que é o elemento principal e responsável por livrá-lo da pecha de um filme comum.
Isso porque a projeção inteira fala sobre sonhos e sobre ir em busca dos seus objetivos, e Sebastian é o maior entusiasta de Mia a respeito do desejo dela de conseguir um lugar no tão competitivo mercado audiovisual hollywoodiano. No entanto, La La Land não pode ser equiparado a um filme da Disney, por exemplo, onde tudo favorece para a concretização dos objetivos. Ele trata da crueza da vida, da dificuldade em se conquistar aquilo que se espera e das concessões que somos obrigados a fazer para que não nos distanciemos dos nossos ideais, ainda que isso nos obrigue a trilhar por caminhos que não necessariamente estão alinhados àquilo que imaginávamos para nós mesmos. Ele diz até mesmo sobre a concretização dos planos de vida, ainda que isso não signifique uma realização plena.
Contudo, o filme é tampouco um dramalhão, que apresenta os desafios e obstáculos como situações dignas de um sofrimento irreparável e choroso. Ele é realista, trabalha e demonstra de uma maneira muito competente a relação que nós temos com aquilo que buscamos. Nesse sentido, a construção do romance do casal protagonista é extremamente orgânica, fugindo do fácil “amor à primeira vista” e de qualquer construção piegas de um namoro entre dois sonhadores.
Emma Stone aparece brilhante no vídeo. Desde Histórias Cruzadas o trabalho dessa atriz tem me chamado bastante atenção, e eu passei a observar com carinho especial a atuação dela desde então. Aqui, ela constrói sua Mia de uma forma muito feliz, e a expressividade colocada sobre cada acorde em cada canção é, sem dúvida nenhuma, o ponto alto do trabalho que a fez ser tão reconhecida nas premiações em que está indicada.
A harmonia do casal não seria perfeita se Gosling não estivesse, igualmente, tratando com muito preciosismo o seu trabalho, e o tom que ele confere ao seu Sebastian em nenhum momento é carregado, evitando aquilo que eu falava antes sobre a história retratar dramas humanos sem pesar a mão na demonstração dessa realidade, caindo no irreal.
As canções são muito bem distribuídas, ainda que a primeira meia hora do longa fique cansativa justamente por causa delas (talvez por um desapego pessoal que eu tenho em relação a muitos musicais). Destaque, porém, para a cena de abertura: incrivelmente coreografada e muito interessante. Mas o que fica realmente muito forte, presente e realizado de maneira extremamente competente são as referências a musicais clássicos, além de uma homenagem à própria Sétima Arte como um todo.
É inegável a relação entre o saudosismo que Sebastian sente do jazz de raiz e a melancolia sobre o cinema atual em detrimento ao que ele era antigamente. Nesse aspecto, é revelador determinado diálogo em que dois casais conversam na mesa de um restaurante (entre eles Mia com seu namorado anterior a Sebastian) e dizem: “ir ao cinema hoje em dia não é mais a mesma coisa. As salas ou são muito quentes ou muito frias. E as pessoas não param de conversar”. Eis um sentimento que eu compartilho fortemente.
Com uma montagem eficiente, uma direção firme e precisa do diretor Damien Chazelle e um design de produção impecável, capaz de nos remeter a experiências incríveis do tempo em que o cinema era muito mais que apenas um programa de domingo (as cenas claramente gravadas em estúdio enriquecem essa sensação), La La Land ganha um espaço merecedor nos anais do cinema de Hollywood sem, contudo, justificar toda a euforia provocada por seus fãs. Ele é, sim, um grande tributo ao melhor do cinema. Mas, apesar de ótimo, não é o melhor cinema.



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