sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O Hobbit – a trilogia

Quando vi o título “The Hobbit” na tela do cinema, lá em “Uma Jornada Inesperada”, ao som da trilha que nos remete a essas criaturas e ao Condado, chorei – no sentido literal: estava começando a reviver uma grandiosa e bela história, contada de maneira brilhante anos atrás e que fizera me apaixonar pela obra de Tolkien. Da mesma forma, quando subiu o letreiro dos créditos em “A Batalha dos Cinco Exércitos”, também chorei. Mas dessa vez houve duas diferenças. A primeira é que meu choro era figurado. Ou seja, eu não havia chorado de verdade. A segunda diferença era porque as “lágrimas” não expressavam alegria, mas decepção.

Produzido por quase que inteiramente a mesma equipe de “O Senhor dos Anéis”, roteirizado pelos mesmos criadores da trilogia do anel – Fran Walsh, Philippa Boynes e também por Guillermo del Toro, além de Peter Jackson, que novamente assumiu o comando da Terra-média, essa nova trilogia ambientada no mundo fantástico onde conhecemos a história de Frodo nos levou ao passado, 60 anos antes dos acontecimentos dos primeiros filmes. Nesta aventura, Bilbo Bolseiro – o personagem título – caminha rumo à Montanha Solitária para reaver o lar e o tesouro dos 13 anões de Erebor comandados por Thorin Escudo de Carvalho. Outrora, eles haviam sido expulsos do local pelo dragão Smaug, que matou seus familiares e adormeceu na montanha em cima do monte de tesouros e lá habita desde então. Nesta jornada, Bilbo encontra o Um Anel da trilogia anterior – ainda que ninguém tenha conhecimento disso – conhece Gollum, Valfenda e os elfos daquele local e fica cara a cara com Smaug.

Ao contar essa história, no entanto, Peter Jackson esqueceu-se daquilo que o tinha consagrado na sua primeira expedição ao mundo de Tolkien, que lhe rendeu 17 Oscar: a parcimônia no uso dos efeitos digitais, o cuidado com a maquiagem, um roteiro firme excluindo partes do livro que não contribuíam na compreensão da trama, a profundidade dos personagens, o uso de recursos técnicos – e não digitais – para filmar, por exemplo, a diferença de altura das criaturas. Nesta nova trilogia, o exagero digital é nítido, o 3D não funcionou como linguagem, o 48fps (velocidade dobrada na exibição, que aumenta a definição da imagem) incomoda e o espetáculo tomou o lugar da singeleza tolkieniana que, de alguma forma, Jackson tinha conseguido captar ao narrar a Guerra do Anel.

Se os aspectos técnicos falharam, é ainda mais desastroso analisar as questões artísticas. Excluindo Hugo Weaving (Elrond), Ian McKellen (Gandalf), Ian Holm (Bilbo velho), Martin Freeman (Bilbo novo), Cate Blanchet (Galadriel), Christopher Lee (Saruman) e Andy Serkis (Gollum), todos os atores tiveram uma atuação sofrível. No caso dos anões, por exemplo, é impossível relacionar o nome de cada um aos seus respectivos rostos, já que eles ficaram superficiais e com quase nenhuma personalidade. 

O roteiro é longo e desnecessário. No primeiro filme, são entoadas duas canções completamente dispensáveis, a batalha dos gigantes de pedra é desnecessária, as cenas de ação, dos três filmes, são longas demais. No segundo filme, a decisão de deixar parte dos anões para trás é irrelevante – nem só porque é infiel ao livro, mas porque é uma desculpa esfarrapada para criar uma tensão que não contribui com a história. No terceiro longa, as cenas envolvendo o Alfrid (Ryan Gage) não têm razão de ser e as batalhas individuais no terceiro ato são chatas e maçantes. 

Nessa salada, Bilbo, que é o personagem-título, acaba ficando como mero coadjuvante. Até a trilha sonora de Howard Shore, esplêndida na primeira trilogia, peca ao extremo nesta.

Ainda assim, há acertos. A direção de arte continua com o mesmo nível de “O Senhor dos Anéis”. As locações na Nova Zelândia são exuberantes e a câmera de Peter Jackson consegue utilizá-las a favor da história. A fotografia ajuda em todos os aspectos e a edição do filme é muito bem realizada, principalmente ao levar em consideração que os três longas foram rodados de uma só vez.

Quando não aplicados para atender à sede de Peter Jackson para o exagero, os efeitos digitais são bem realizados, especialmente na construção da Cidade do Lago, no grande salão da Montanha Solitária, na sinistra Dol Guldur, no irretocável Gollum e, especialmente, no grandioso Smaug.
A decisão de não tratar a trilogia com a mesma linguagem do livro, que tem um tom mais infantil, também foi acertada, principalmente pela necessidade de dar uma unidade aos seis longas. Afinal, destoaria muito se “O Hobbit” tivesse uma linguagem mais lúdica, enquanto “O Senhor dos Anéis” tem uma atmosfera sombria e tensa.

Da mesma maneira, o cuidado com a linearidade da história é perceptível. Peter Jackson e sua equipe de roteiristas conseguiram inserir elementos importantes que ligaram os acontecimentos da aventura de Bilbo à de Frodo, algo que não fica claro no livro e só pode ser conhecido caso os interessados pelos contos da Terra-média busquem os apêndices de “O Senhor dos Anéis” ou outras obras de Tolkien como “O Silmarillion” e “Contos Inacabados”. Por isso, inserir a batalha de Dol Guldur e o Conselho Branco para explicar as ausências de Gandalf foi uma decisão importante.

Entretanto, no final das contas, o que resta é o desânimo de ver que os pontos positivos foram ofuscados por um roteiro prolixo e uma necessidade sangrenta por bilheteria, que levou a equipe a esticar um pequeno livro infantil numa trilogia de quase 9 horas de duração. Tolkien deve estar se revirando no túmulo, chorando na Morada de Mandos – ao contrário de mim, literalmente.


Um comentário:

  1. Você elogiou a fotografia, mas ela as vezes me irrita, principalmente nas cenas ao pôr do sol, cuja iluminação me pareceu extremamente artificial.
    Tirando isso, concordo com tudo o que você disse. Análise perfeita!
    Ah, faltou falar da canção final do terceiro filme, que é de fazer até Gimli chorar!

    ResponderExcluir

Qual sua opinião sobre este filme? E sobre esta crítica? Comente! Deixe a sua opinião! Participe!