quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A Menina Que Roubava Livros



A Morte contou a história realmente. Esse era o meu maior questionamento ao saber que o best-seller do australiano Markus Zusak seria adaptado para o cinema. Afinal, grande parte do brilhantismo da obra literária residia na peculiaridade do narrador. 

“A Menina Que Roubava Livros” (The Book Thief, EUA, 2013) conta a história de Liesel Meminger (Sophie Nélisse), uma garota que é confiada, já crescida, a pais adotivos em plena Alemanha nazista. A menina sofre com a morte do irmão mais novo que deveria lhe fazer companhia na casa dos novos pais. Além da angústia de ter sido separada da mãe, acusada de comunista. 

Para superar essas aflições, ela conta com o carinho de Hans Huberman (Geoffrey Rush), seu pai adotivo, com a amizade do garoto Rudy Steiner e com um passatempo peculiar: roubar livros. Inicialmente analfabeta, na medida em que a menina vai descobrindo as palavras, também passa a conhecer mais sobre o mundo ao qual está inserida, especialmente depois que seu pai resolve esconder um judeu no porão de casa.

Extremamente fiel ao livro (até por ter sido co-roteirizado por Zusak), o filme reconstrói de maneira incrível uma pequena cidade alemã e consegue retratar com muita verdade as condições de vida do povo germânico na época: mesmo aos trapos e a maioria com problemas financeiros — em contraste com a realidade dos membros do partido Nazista — o sentimento de nacionalismo nas casas, uniformes, no comportamento do povo é trabalhado com sutileza de detalhes na direção de arte e no design de produção.

Deixei implícito ao citar o comportamento do povo que um grande complemento ao trabalho técnico são as atuações. E antes de falar dos protagonistas, preciso me ater aos figurantes e seus olhos marejados ao entoar um hino nazista durante a queima de livros, a paixão das crianças cantando outro hino de exaltação ao regime e a dureza nos olhos das pessoas quando alguém é preso por soldados de Hitler.

Nélisse desempenha com grande propriedade a Liesel e consegue transpor na sua atuação a evolução da menina em todos os aspectos: na leitura, na amizade com Rudy, na proximidade com seus novos pais e, claro, na sua própria personalidade. 

Emily Watson dá o tom correto à Rosa, a dura mãe adotiva de Liesel, e Rush consegue transparecer no seu tom de voz, no seu olhar melancólico e no sorriso sincero toda a simpatia do Sr. Huberman, assim como seus dramas e as histórias do passado que carrega consigo, que o faz ser muito mais compreensivo com os povos odiados do que os seus vizinhos.

Talvez o único defeito de “A Menina Que Roubava Livros” seja justamente o que costuma acompanhar todas as adaptações: não ser tão emocionante quanto a obra literária. Alguns pontos evidenciados na narração do livro acabam passando despercebidos no longa, como o xingamento comum de Rosa. Os “encontros” da Morte com Liesel também não ficam muito bem pontuados, o que deixa o personagem-narrador um tanto distante dos acontecimentos em comparação com a versão literária.

O destaque dado ao contraste entre perigo e magia da palavra também é pouco explorado, mas nada que impeça o espectador de se emocionar com a trama. Usar a diferença dos meios de contar a história para justificar qualquer tipo de decepção não é necessariamente um bom julgamento, por isso, uso esses argumentos mais para expor que, do mesmo modo que Liesel, o melhor a se fazer por qualquer apreciador de cinema que não conheça o original é buscar essa leitura, com a mesma sede da protagonista.

E quando escrevi decepção não quis dizer, de modo nenhum, que sob algum aspecto fiquei decepcionado. Pelo contrário.
Tanto a emoção da própria narrativa quanto a trilha sonora impecável de John Williams, o trabalho técnico e artístico de todos os envolvidos conseguiram levar ao cinema, com maestria, a história de "uma menina, algumas palavras, um acordeonista, uns alemães fanáticos, um lutador judeu e uma porção de roubos".



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