quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Círculo de Fogo



O fascínio de Gillermo del Toro em monstros é visível em qualquer projeto em que ele trabalhe. Desde o fantástico (e melhor exemplar da sua carreira) “O Labirinto do Fauno”, até suas contribuições para o roteiro e design das criaturas de “O Hobbit – Uma Jornada Inesperada”, podemos ver o quanto o cineasta aprecia usar a imaginação para dar vida a seres estranhos e complexos. 

Portanto, não é com espanto que vemos em “Círculo de Fogo” (Pacific Rim, EUA, 2013) um grande exemplar de criatividade e invencionismo. Engana-se quem acha que o filme é um “novo Transformers”. Ao contrário de Michael Bay, a intenção de Guillermo del Toro não é encher cada segundo do filme de explosões, perseguições e lutas, mas homenagear os filmes de monstro que fazem parte do imaginário japonês (o exemplar mais conhecido é Godzilla, até por sua adaptação americana por Rolland Emerich) tanto no cinema, quanto em animes.

“Círculo de Fogo” mostra a Terra em um breve futuro, onde monstros gigantescos começam a aparecer e provocar uma destruição catastrófica no planeta. Essas criaturas se originam das camadas mais baixas da crosta terrestre e emergem no oceano por uma fenda causada por certa falha em uma placa tectônica. 

Inicialmente, o planeta tentou combater essas criaturas com armas nucleares e os aparatos comuns de guerra, até perceber que seria necessário um recurso mais destruidor para dar conta de proteger o planeta. 

Então, todas as nações resolvem se juntar para criar um programa de construção de grandes robôs de guerra, com o mesmo tamanho dos monstros, de modo a atacá-los de igual para igual. Esses robôs são tripulados por duas pessoas, que precisam ter compatibilidade neural. Ao pilotar esses gigantes de ferro, um tripulante “entra na mente do outro” e é aí que o longa torna-se mais humanizado.
Não se trata, portanto, de uma história de guerra dos alienígenas com máquinas criadas pelo homem, mas justamente dos conflitos internos de cada personagem, que precisam ser divididos com o parceiro de “pilotagem”.

O maior drama é do soldado Raleigh (Charlie Hunnam) que logo no início da projeção é atacado por uma criatura mais forte do que o imaginado pelas autoridades e, na luta, acaba perdendo o irmão enquanto estava conectado a ele. Isso resulta em uma dor e uma culpa que acompanha Raleigh ao longo do enredo. Apesar disso, a atuação mediana de Hunnam não explora todas as possibilidades de complexidade que a história do seu personagem lhe permitiria.

Apesar disso, sua nova parceira, Mako (Rinko Kikuchi) demonstra segurança no papel, numa atuação marcante, cuja presença em cena é intensificada pelas próprias características da jovem: além das motivações internas que a fazem desejar participar do programa de combate às criaturas, ser uma mulher forte e determinada num ambiente majoritariamente masculino torna tudo ainda mais interessante. E o melhor é que os roteiristas não caíram na tentação de ficar citando – nem positiva, muito menos negativamente – o gênero da soldada, como também não se curvaram a desenvolver um romance entre os dois protagonistas: saída fácil, clichê e piegas.

Enfim, apesar da inventividade e da boa condução que Guillermo del Toro dá ao filme, as atuações transitam entre o exagero, a inexpressividade e o caricatural, a estrutura narrativa do filme – iniciada por uma narração que localiza o expectador à realidade a ser demonstrada – logo é abandonada, num exemplar daquilo que vivo falando por aqui: a narração, grande parte das vezes, é uma escolha preguiçosa no cinema, meio que oferece inúmeras possibilidades para se contar e listar os fatos. Tal preguiça, aqui, soa particularmente incoerente diante de todo o cuidado com o design de produção.

Inegavelmente um forte candidato a prêmios pelo brilhante trabalho de sonoplastia, trilha sonora e, principalmente, efeitos visuais, del Toro merece crédito pela condução de um filme que tinha tudo para se tornar mais um na lista de produções ficcionais descerebradas. Ainda assim, peca por não aprofundar os dramas das pessoas diretamente envolvidas nas tragédias provocadas pelos monstros e o sofrimento da própria sociedade mundial, refém do desconhecido e que em nenhum momento aparece amedrontada ou dizimada pelos ataques mostrados na história.

“Círculo de Fogo” é um bom filme de ação para assistir sem culpa de estar prestigiando uma porcaria. Mas também não é nada que deve ser enaltecido como sendo fruto de uma grande sacada cinematográfica.
 


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