domingo, 13 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi


Impossível fugir das questões religiosas que este “As Aventuras de Pi” (The Life of Pi, EUA, 2012) suscita. Mesmo para quem é ateu, o filme impõe uma reflexão muito coerente a respeito do modo como a crença em um Ser Superior é encarada pelas pessoas.

No filme, adaptado da obra de Yann Martel (veja considerações sobre este livro ao final desse texto) e dirigido por Ang Lee (de “O Segredo de Brokeback Mountain”), acompanhamos a trajetória do garoto Piscine Molitor Patel, ou simplesmente Pi, apelido que adotou para evitar chacotas e disfarçar o significado real do seu nome (uma piscina pública luxuosa da França). Filho do dono de um zoológico na Índia, a família decide se mudar para o Canadá de modo a evitar dificuldades financeiras iminentes e levam todos os animais pertencentes a eles num navio cargueiro. Na viagem, o navio passa por uma terrível tempestade, que leva a embarcação a naufragar e, com ela, toda a família de Pi e a maioria dos animais do zoológico.
Sozinhos com ele, à deriva, restam um macaco, uma zebra e uma hiena, que acaba devorando os outros dois animais. Por fim, a hiena é atacada pelo tigre de bengala que se escondia no bote, restando apenas a fera carnívora e o garoto perdidos no meio do Pacífico.

Daí em diante o filme segue com cenas de puro deleite aos olhos. O tigre criado por captura de performance é incrivelmente bem realizado, o que nos deixa dúvidas se de fato se trata de uma criatura digital. Além dos movimentos perfeitos, da textura dos pêlos (especialmente quando estão molhados), a expressividade marcante e ao mesmo tempo natural do animal é impressionante.

Mas é um espetáculo à parte. Todo o trabalho digital realizado para conceber o infinito Oceano Pacífico é ímpar, que nos traz um incrível misto de realidade com fantasia, marcada principalmente pela luz misteriosa de águas vivas fluorescentes no meio da noite, pela baleia que surpreende o garoto de madrugada, pela ilha de suricates, pelo céu alaranjado que se mistura às águas calmas e pela ferocidade do mar uma certa tempestade.

Mas tão ou mais incrível que os efeitos visuais empregados no longa é a imersão que a história nos leva, incapaz de nos incomodar ou entediar ainda que o filme se concentre no relato do convívio de um jovem com um tigre no meio do nada, por quase duas horas.

O que nos prende, portanto, é o anseio de saber o que há por vir, qual será a reação do tigre diante de cada decisão do garoto e, apesar do universo fantástico, o animal não perde suas características de fera, seu instinto natural. Assim, Pi está constantemente em alerta, por mais que em certa altura ele acredite que tudo está sob controle. Não está.

O que torna a história interessante, por mais improvável que isso possa parecer, está unicamente no design de produção, na direção e nas atuações. Afinal, não há mistérios a serem revelados. Pi não morre, isso sabemos porque é ele quem conta a história, portanto, não há tensão, não há segredos. Há somente um ótimo trabalho de equipe, liderada por um visionário diretor que nos transporta a um relato envolvente, bem contado e, acima de tudo, instigante.

Duas histórias nos são apresentadas – quem viu sabe do que falo, quem não viu, saberá. Uma mais provável, outra fantasiosa, que é a que acompanhamos ao longo da projeção. Resta-nos decidir em que acreditar. “Assim é com Deus”, revela Pi.
A razão nos leva a concluir que apenas o crível é digno de ser levado em consideração, ainda que não explique todos as circunstâncias que culminaram naqueles eventos. Mas a emoção, a fé, - que também não explica tudo – pode ser motivo mais que suficiente para acreditarmos, de fato, que um orangotango foi salvo por uma penca de bananas flutuantes, que a morte foi afastada pela descoberta de uma ilha carnívora e que o mar brilhava fluorescente à noite. O fato de o filme se desenrolar quase por inteiro em torno de uma fantasia é um reflexo do nosso mundo hoje: existem muito mais pessoas que acreditam em uma divindade – e são essas crenças que determinam a criação de leis e regram o que é a moral – do que aqueles que se guiam unicamente pela razão, pela ciência, pelo comprovável.

É nós que decidimos no que acreditar. Não houve testemunhas, só relato de quem sentiu e diz que vivenciou aquela experiência. E assim como em “Pi”, a história da humanidade está repleta de explicações fantásticas de origem divina que a razão tenta explicar de modo mais plausível.

Escolher no que acreditar só depende de nós mesmos. E ignorar o impossível nem sempre significa abraçar os fatos.

P.S.: Não sei analisar o 3D, pois não vi neste formato. Ainda assim, fica explícito que o filme foi concebido para ser assistido dessa forma.



Observação: O livro do qual o filme foi adaptado é considerado pela crítica internacional um plágio do brasileiro “Max e os Felinos”, de Moacyr Scliar. Depois de muitas acusações, Yann Martel, autor de “As Aventuras de Pi” confessou que se “inspirou”, ou se “baseou” no livro brasileiro. Scliar não processou o autor de “Pi”. O Andarilho vai tratar desse ocorrido para dar mais detalhes sobre o caso em breve.


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