domingo, 19 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas

Diriam os racistas (enrustidos, claro; como sempre!) que o preconceito contra negros não existe mais. Os pseudo-críticos falariam que é algo que não rende histórias porque há tempo já sabemos que isto é ruim. O que estes grupos ignoram é que o preconceito racial vai muito além do "existe/não-existe", ou do "rende/não-rende". Aqui está em jogo outra série de discussões, tais como igualdade, respeito, compreensão e solidariedade. São reflexões positivas que, parece, muita gente não gosta de sentir ou vivenciar, por isso são tão enfáticos ao criticar obras que cedem generoso espaço a estes tipos de atitudes e sentimentos. E este "Histórias Cruzadas" (The Help/ EUA/ 2011) está cheio deles.

O longa, escrito e dirigido por Tate Taylor, acompanha a tragetória da jornalista recém-formada Eugenia Skeeter (Emma Stone) que, após voltar à sua cidade natal, consegue um emprego no diário local e passa a escrever em uma coluna com dicas de limpeza doméstica.
É aí que ela tem o primeiro contato com Aibileen (Viola Davis), empregada de uma de suas "amigas" da socialite de Jackson, Mississipi, estado sul-americano assustadoramente racista. É esta que lhe empresta algum tempo de atenção durante o dia de trabalho para responder às dúvidas das leitoras da coluna de limpeza.
Mas a sensibilidade de Skeeter fica mais aguçada quando ela se dá pela falta da empregada que havia trabalhado com sua família durante 30 anos e, misteriosamente, se mudara para longe. Com isso, a jovem jornalista decide escrever um livro contando as histórias de cada uma daquelas empregadas negras; sobre a forma que elas eram tratadas e as situações que viviam ao cuidar da casa e dos filhos dos brancos e não poderem, sequer, usar o mesmo banheiro destes.

O primeiro grande trunfo deste longa é o design de produção e direção de arte. O figurino também ganha destaque especial. Mas é a trama que se estabelece como o chamariz principal de "Histórias Cruzadas".
Mesmo precisando de Skeeter como intermediária para que as histórias de cada uma daquelas mulheres se tornem públicas (e é a jornalista, branca, quem tem a iniciativa), o principal exemplo de coragem vem das empregadas, negras, que se arriscam num estado de leis injustas para os negros (que os proibia - até mesmo - de serem tratados como iguais). Arriscam-se ao contar as histórias - nem sempre positivas - acerca de suas experiências profissionais e da forma como eram tratadas.

Como se não bastasse, ainda temos a vilã-mor, vivida por Bryce Dallas Howard, que, num acesso revoltante de cinismo, promove uma campanha para aprovação de uma lei que obrigue brancos a construírem banheiros externos e separados para seus empregados negros no mesmo instante que lidera outra corrente, de arrecadação de fundos em benefício à crianças africanas.

Em certo momento, um personagem diz à Skeeter: "Tudo está bem. Por que criar problemas?". No que a jornalista responde: "Porque o problema já existe". Ou seja, o problema está ali do lado, e para se fazer de solidária, a megera vilã (que está longe de ser caricata) prefere ser uma bem-feitora para crianças do outro lado do Atlântico.

A propósito, por mais vilã que a personagem de Howard seja, por mais cômica que a Minny (de Octavia Spencer, ótima) também seja - apesar dos seus dramas domésticos -, o roteiro é feliz ao destacar, humanizar e dar uma dimensão mais palpável e real acerca da personalidade de cada personagem. Por isso que compreendemos que o preconceito está na alma de uma pessoa, e não é externado unicamente na forma de racismo: a não-aceitação das socialites de Jackson à Celia, a nova-rica do filme, demonstra que, na verdade, aquelas dondocas querem apenas estar entre iguais, sem aceitar as diferenças. E notemos quão sublime é o comportamento de Celia com Minny, a tratando como igual e reconhecendo nesta um valor até então não percebido, muito menos reconhecido, pelas suas antigas patroas.

Pecando apenas por conta de uma personagem (a mãe de Skeeter) que, ao contrário de todos os outros personagens, não tem uma personalidade definida (ela oscila entre momentos de racismo e outros com a mais alta conscientização a respeito da situação dos negros), "Histórias Cruzadas" já é candidato irrefutável a um lugar na minha prateleira de DVDs.
E que me chamem de racista os críticos de cinema que, incapazes de distinguir uma emoção sincera e natural de qualquer ser humano em dadas situações, encaram cenas de despedida e desprezo aos negros como forçassão de barra e melodrama.

Se este fosse um filme "feito para chorar", não haveria comédia, Minny seria estratosfericamente apresentada como uma pobre-coitada incapaz de decidir sobre o seu destino e a narradora da história não seria uma negra.

Já dizia uma senhora - negra - que atendi no cinema estes dias: "A sala está vazia porque as pessoas não gostam de histórias de negros. E ainda dizem que racismo não existe".
O pior é saber que nem críticos de cinema - ditos intelectuais - não querem que este filme seja visto.

Se você não é racista, assista "Histórias Cruzadas".


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os Descendentes

"Os Descendentes" (The Descendantes, EUA, 2011) é a prova do desespero que a Academia, aparentemente, se departou ao elencar a lista de filmes para concorrer à estatueta do Oscar. Ou isso, ou os critérios para a maior premiação do cinema mundial estão realmente falhos.
Não me refiro aos demais indicados (até porque não vi todos). Mas o fato deste novo filme de Alexandre Payne estar na lista dos concorrentes a Melhor Filme me preocupa profundamente. "Os Descendentes" não tem história, nem clímax e nem mesmo boas razões para ser visto. Fraco. Muito fraco.

O longa conta a história do advogado Matt King (George Clooney), que precisa lidar com várias situações tensas que resolveram tomar conta da sua vida de uma só vez: sua esposa, Elizabeth, sofreu um acidente de barco e está à beira da morte no hospital; sua família nutre um relacionamento familiar interesseiro para vender terras que há séculos pertencem à família, e cabe a King a tarefa de assinar a decisão final sobre a venda desse milhonário pedaço de terra; sente-se forçado a estreitar os laços com suas filhas adolescentes problemáticas e, ainda por cima, precisa conviver com a descoberta de ter sido traído por sua quase-finada mulher.

Ambientado no Havaí, o filme é uma adaptação do livro de Kaui Hart Hemmings. Adaptação muito mal feita, por sinal. O filme é mais longo que o necessário e em nenhum momento nos surpreende com uma cena verdadeiramente interessante.
Na primeira parte da projeção, vemos King nos localizando sobre sua vida e sobre seus conflitos atuais. Além de, particularmente, detestar narração em off (a não ser em casos específicos, por entender que um filme é uma obra genuinamente visual, e a narração em off empobrece a história contada no cinema), ela não contribui e soa dispensável, já que as situações descritas pelo protagonista no seu - me permitam definir desta forma - monólogo, soam mais interessantes que todo o restante da fita.
Isso compromete o filme, já que percebemos, logo de início, a falta de criatividade necessária para que o filme siga adiante. Nos 115 minutos intermináveis de projeção, nos deparamos com gags cômicas infelizes, que fazem piada em cima da situação de Elizabeth, com uma perseguição patética pelo amante da enferma. E só.

Apesar de contar com personagens descartáveis - como o "amigo" de Alexandra (Shailene Woodley), filha de King - a única coisa em "Os Descendentes" que faz valer a pena o ingresso é o elenco. As atuações são belíssimas. Desde Clooney, que confere a complexidade necessária ao seu personagem, exibindo sentimentos e comportamentos que o próprio filme não transparece, até a filha do protagonista, vivida por Woodley, que encarna a primogênita de King como uma naturalidade impressionante: por mais que tenha os problemas típicos - e outros agravados pela situação familiar - de uma garota de 17 anos (como a necessidade de um amigo para se sentir mais segura, a busca por mecanismos de fuga, como o álcool, para esquecer dos problemas), exibe uma maturidade fascinante ao ajudar o pai nas suas tarefas - por mais tolas que elas sejam; e aqui não me refiro a decisões tolas do protagonista, mas às decisões tolas que o roteiro faz o protagonista perseguir.

Da direção de Payne, o que resta de bom são as locações, muito bem aproveitadas e que embelezam o longa, além de contrastar com o momento difícil da família King. Mas nem isso ganha notoriedade, já que, com as gags cômicas e a falta de velocidade, os "respiros" que poderiam ser proporcionados pelas cenas com belas paisagens do Havaí tornam-se apenas um objeto de decoração.
Pra piorar, o desfecho não justifica o título, dizendo muito pouco (ou nada) sobre a situação das terras herdadas pela família.

Repito: sorte do filme é ter as atuações que têm. Caso contrário, estaria fadado a virar mero sonífero.