sexta-feira, 27 de julho de 2012

Valente

Hoje, 27 de julho, vou ao cinema assistir "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge"; um filme de Christopher Nolan. O nome do diretor já denuncia o tipo de longa que vou encontrar: um roteiro bem amarrado, com subtramas complexas, um nível de realismo aceitável, cenas de ação bem coreografadas e diálogos relevantes. São características diferentes das que eu encontraria assistindo a um filme de Michael Bay, por exemplo, que é pai das frases fáceis e de efeitos visuais a todo custo, independente da relevância destes para que a história seja contada com qualidade.

Dito isto, chegamos a "Valente" (Brave, EUA, 2012): eu fui ao cinema com a intenção de assistir a um filme da Pixar, conhecida por clássicos infantis que abordam temas pertinentes de maneira inteligente, como em "Wall-E" e "Vida de Inseto", por exemplo. Além de sempre se ter esperança de experimentar risos como aqueles que inevitavelmente soltamos com "Procurando Nemo" ou "Monstros S.A".
Claro que nunca podemos ter a certeza do que encontraremos ao assistirmos a um filme Pixar, pois o estúdio é também conhecido pela sua capacidade invejável de inovação e imaginação. Assim, é com espanto que, após passarmos os mais de 90 minutos de projeção acompanhando a história da princesa Merida, saiamos do cinema com a impressão de ter visto um filme da Disney, e não da Pixar. E é exatamente por isso que exemplifiquei essa estranheza no primeiro parágrafo deste texto.

É preciso dizer, antes de mais nada, que não considero os filmes Disney ruins. Obviamente que eles têm seus tropeços, mas clássicos como "O Rei Leão" (só pra citar um) não podem ser ignorados. Mas ao assistir a um filme com a assinatura dos estúdios Disney já podemos esperar coisas que não encontraríamos em um longa Pixar. Por isso a estranheza e por isso fica difícil destacar "Valente" como um dos grandes filmes do estúdio criador de "Toy Story".

Mas daí tiramos algumas conclusões preocupantes: estaria a Pixar funcionando de fantoche para a Disney e sofrendo com uma "poda" da sua independência criativa? Ou se trata apenas de um tropeço comum em qualquer carreira?

Fantoche ou não, o fato é que a história da princesa que decide enfrentar as leis do reino e lutar pela sua própria mão tinha um incrível potencial de despertar discussões complexas a respeito de questões feministas e de gênero. Mas acabou sendo apenas mais uma história da menina que procura uma bruxa para fazer sua mãe mudar de ideia. Sua mãe, então, vira um urso e daí todo mundo se arrepende do modo como encarava as coisas.

Tencnicamente o filme é impecável. A beleza da animação ao conceber os campos da Escócia medieval é indescutível. Da mesma forma, os cachos intensamente vermelhos de Merida são fenomenais e incrivelmente reais. O 3D também é muito bem empregado, embora a fotografia seja predominantemente escura, o que empalidece a experiência em uma outra dimensão. E embora o roteiro seja mais "mamão com açúcar" do que a capacidade da história sugeria, temos uma personalidade bem definida em todos os personagens: Merida herda, claramente, o espírito destemido do pai, e não tem receio de expor seus sentimentos e seus pensamentos, embora tenha sido rigidamente domesticada pela mãe, a bela e rígida Elinor.
Mas, ainda que a mãe da protagonista seja exigente, Merida jamais chega a ser mimada, como faz a superprotetora mãe de Nina, em "Cisne Negro", por exemplo. Elinor não trata Merida como uma criança, mas como uma mulher capaz de assumir responsabilidades adultas e se portar com austeridade diante dos súditos do seu pai, o Rei Fergus.

É belo, portanto, observarmos as sutlilezas da personalidade de Merida: apesar de negar completamente as instruções da mãe e de - como já dito - herdar as preferências do pai, ela tem a maturidade vista em Elinor. Embora destemido, Fergus não é um exemplo de boa oralidade, nem mesmo de centralidade. Em suma, Merida tem o bom discernimento da mãe e a valentia do pai, e isso fica claro em vários momentos.
Ainda que conte com personagens ricos em personalidades bem definidas, "Valente" recorre a clichês que fazem o filme fraquejar: o prazo para que tudo se resolva, as canções descartáveis ao longo da projeção e as frases de efeito completamente desnecessárias diante do simbolismo ímpar que a história propunha, mas que foi desperdiçado com os clichês mencionados e com as tentativas desastrosas de se fazer rir.

Mesmo que a solução para o conflito principal do filme (a metamorfose de Elinor em urso) esteja além do que é literalmente mostrado (e isso é um ótimo sinal de que, pelo menos, a Pixar não está mastigando seus filmes para o espectador), ainda assim ele soa como contraditório, já que tudo passa pelo reconhecimento de que é preciso ser domesticado para ser feliz.
Ao fim, não sabemos em que pé ficaram as coisas. O acordo feito entre os clãs no terceiro ato do filme parece não ter sido levado adiante e todos tomam seus rumos sem nenhum final definido.
Toda carreira tem seus tropeços. Com a Pixar não poderia ser diferente. E mesmo que "Valente" tenha sido mais fraco do que habitualmente esperamos do estúdio, continua sendo melhor que as demais animações lançadas neste ano. Só esperamos que os erros não se tornem maioria e que logo a Pixar volte a nos surpreender. Eu não duvido disso, especialmente pela beleza do curta "La Luna", apresentado antes de "Valente".

Sim, a Pixar continua sendo Pixar. Só esperamos que a Disney permita isso.

Obs.: Há uma cena extra após os créditos finais.

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