quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sombras da Noite

Um trem percorre por paragens inóspitas enquanto uma misteriosa garota, em um dos vagões, ensaia a forma como vai se apresentar a seus novos patrões. De imediato, já mergulhamos em uma história cheia de mistérios e segredos quase dois séculos depois dos fatos que resultaram na maldição sob a qual a família Collins foi submetida. A misteriosa garota adota um nome falso, Victoria Winters (Bella Heathcote), a fim de esconder seu passado. Winters chega a Collinsport para ser a tutora de David Collins (Gulliver McGrath), o caçula da família que diz ser atormentado por visões da mãe falecida. Assim inicia, de fato, a trama de "Sombras da Noite" (Dark Shadows, EUA, 2012), o novo filme de Tim Burton, adaptação da série de TV de mesmo nome, com o inseparável companheiro Johnny Deep, que, aqui, vive Barnabas Collins.
A história se passa na fictícia cidade de Collinsport, construída "com o sangue" da família Collins, logo depois que deixaram Liverpool. Ali foi erguido um império de pescados que tornou possível a construção da imensa moradia da família, projetada para ser mantida por "cem criados", de acordo um dos personagens.
Os tempos áureos dos Collins, no entanto, não existem mais. Depois de partir o coração da bruxa Angelique Bouchard (Eva Green), Barnabas é exposto a uma série de infortúnios: seus pais morrem em circunstâncias misteriosas, sua amada é enfeitiçada e atira-se de um penhasco e ele, por fim, tenta se matar junto com o amor da sua vida, mas sobrevive na condição de um vampiro. Enterrado vivo em um caixão por quase 200 anos, ele é despertado em 1972 com muita sede de sangue e de levar os Collins à antiga glória.
O longa é repleto de subtramas. Na mansão vivem a matriarca Elizabeth (Michelle Pfeiffer) com o irmão Roger (Johnny Lee Miller) que é pai de David e da adolescente rebelde Carolyn Stoddard (Chloe Moretz). Além da família, a psiquiatra Julia Hoffman (Helena Bohnam Carter) atende em tempo integral a família para tratar dos distúrbios do caçula.
Fora da mansão, a cidade é praticamente governada por Angelique, que adotou um novo nome e é adorada pelos habitantes. Ela modernizou e fomentou o comércio de pescados e conservas e detém a maioria dos negócios do ramo na região. E fez tudo isso por vingança.
Com tantas subtramas o roteiro acaba por se perder. Barnabas, Angelique e Elizabeth são os únicos personagens que não aparecem unidimensionais na história. Quando o roteiro tenta se aprofundar na personalidade de qualquer outro, o filme perde o rumo, embora nunca o ritmo.
Assim, se a história começa mostrando Victoria criando um nome falso e chegando à mansão dos Collins cheia de suspeitas e segredos, logo nos vemos esquecidos de como fomos apresentados a ela. Embora Barnabas se apaixone e fale continuamente da garota, todos os conflitos dela são explicados em um diálogo rápido que sequer consegue trazer alguma comoção por conta da história de Victoria.
Por sua vez, Roger Collins é tratado como alguém que só contribui para o atraso no progresso da família. Mas isso jamais é exemplificado em alguma cena que justifique a gravidade das suas ações (ou não-ações). Na verdade, são apenas uma ou duas situações que levam Barnabas a tomar uma decisão importante a respeito de Roger e isso não soa convincente. Neste momento, David se parece mais apegado ao pai do que o filme foi capaz de mostrar até aquele momento. E logo em seguida nem parece sentir falta dele.
A psiquiatra Julia Hoffman nunca aparece tratando do garoto David, e é mostrada no filme apenas como mais uma criada sob o efeito constante do álcool, mais interessada no novo hóspede do que no tratamento que deveria ser motivo da sua estadia. E é curioso como Elizabeth se mostra tão cuidadosa a respeito da ordem familiar (reparem as perguntas desnecessárias que ela faz a Victoria assim que esta chega na mansão) e nunca reclame do fato de Hoffman não realizar seu trabalho.
Carolyn se sente constantemente ofuscada pelo problema do irmão. Reclama que não é notada e se comporta de maneira chamativa, para tentar contornar a desatenção da família. Mas o desfecho preparado para ela é completamente desinteressante. Isto porque, em nenhum momento, observamos algum tipo de pista ou suspeita que possa resultar naquilo. A decisão de fazer com que Carolyn seja mostrada da forma como o clímax do filme a apresentou parece injustificada e deslocada da personalidade que o roteiro a vinha trabalhando até então.
Por fim, temos um trabalho que se perde no excesso de personagens. Isso até não seria um problema se a trama fosse estruturada de modo a ligar cada uma das histórias. Mas como se pode perceber pela própria forma como este texto está estruturado, as subtramas não "desembocam" num lugar só, prejudicando a estrutura do filme que acaba por ser superficial em diversos aspectos. Tudo o que acontece parece importante, isso fica claro, mas não entendemos qual é o eixo central do longa. As escolhas do roteiro de Seth Grahame-Smith parecem equivocadas, já que, como já disse, a trama inicia (após o prólogo) com uma personagem secundária; e se não é secundário, pelo menos é o que o roteiro faz crer.
Apesar das falhas estruturais, a história é interessante, embora nunca complexa ou bem elaborada. A fotografia é excelente e o uso de cores fortes como o roxo, vermelho, preto, azul invocam à características do expressionismo alemão que estão tão presentes na fimografia de Burton quanto Johnny Deep. Apesar das cores, é importante notar que, apesar de ensolarada, Collinsport é escura tem um ar acizentado, já que, afinal, não se trata de uma história vibrante. Apesar das (boas) tiradas cômicas é, antes, uma história de vampiro.
A direção de arte e o figurino estão impecáveis e são primordiais para que compreendamos a grandeza dos Collins. Com isso, mesmo sem mudar a decoração, notamos um reavivamento da mansão a partir da reforma, apesar de o local jamais perder sua grandiosidade, tamanho detalhe na decoração e ornamentação dos ambientes.
Por fim, é importante ressaltar detalhes que tornam o filme, do ponto de vista histórico-cinematográfico, ainda mais curioso. Barnabas ganha características físicas semelhantes a Nosferatu, clássico vampiro de 1922 que era uma espécie de "plágio" do Drácula. Conde Drácula, por sua vez, é lembrado pela presença de Christopher Lee, que viveu o sedutor vampiro na adaptação de 1958.
Com atuações interessantes e um universo instigante, saímos do cinema com a percepção de que Tim Burton pode não ter feito o melhor dos seus filmes, mas continua fazendo longas agradabilíssimos de se apreciar.


4 comentários:

  1. Sinceramento acho que o Tim Burton deveria se aposentar.

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  2. Gostei da Crítica. Lembrando que esse ano ainda tem mais um filme desse grande visionário Tim Burton, a animação Frankenweenie que pelo material apresentado parece ser muito bom e meio macabro e também com um toque de comédia assim como a noiva cadáver ou qualquer longa de Burton.

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    1. Obrigado pelo comentário e pela visita aqui, Lucas! Pois é... vamos ver o resultado de Frankenweenie. É o primeiro filme que Burton queria realizar na carreira, mas foi impedido pela Disney, na época.
      Vamos ver se o tempo o ajudou ou não.

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