quarta-feira, 11 de abril de 2012

Jogos Vorazes

Uma das premissas que eu levo comigo é a de que um filme dificilmente será bom quando é previsível. Por isso que comédias românticas, por exemplo, são daquele tipo de histórias difíceis de convencer. No entanto, se no meio do caminho a trama se revela instigante e inteligente, o final não se dá como única razão de ele existir; logo, a previsibilidade torna-se, em grande parte das vezes, perdoável.

Confesso que ao entrar no cinema para assistir a este "Jogos Vorazes" (The Hunger Games, EUA, 2012) esperava assistir a mais uma mera febre adolescente, com história morna e final previsível.

Preciso adiantá-los de que eu estava redondamente enganado.

O longa, dirigido por Gary Ross, roteirizado pela autora do original, a norte-americana Suzanne Collins, a partir do primeiro livro da trilogia, conta a história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), uma jovem que se voluntaria a disputar os Jogos Vorazes no lugar da irmã mais nova, que havia sido sorteada. O problema é que, nestes jogos, apenas um dos 24 competidores (um rapaz e uma menina) de cada um dos 12 distritos de Panem (a América do Norte do futuro) volta vivo para casa.

Logo no início já somos apresentados à protagonista. Num primeiro momento, sensível e carinhosa com a irmã caçula. Logo em seguida, destemida e selvagem, quebrando regras, ultrapassando barreiras para, em um local proibido, caçar e treinar para uma possível infeliz convocação aos Jogos.
Apesar de fazer bem a apresentação dos protagonistas, e torná-los mais reais e convicentes (tarefa que merece elogios não só pela forma como o roteiro é construído, mas especialmente pelas ótimas atuações, que falarei adiante), a câmera nervosa, utilizada como recurso nas cenas iniciais, não ajuda em nada na tarefa de nos fazer sentir um pouco de como vivem aquelas pessoas que são mostradas de imediato.
Mesmo sobrevivendo em uma condição miserável, fica claro o quanto é preferível estar ali do que ser sorteado à mortal competição. E mesmo que, naquele momento, a câmera seja usada daquela forma para retratar o desconforto de viver aos trapos e com fome, ainda assim, não convence, pois o que vemos é uma irmã acalentando a outra, em meio a ruínas e a um lugar cinzento e desconfortável, é verdade (o que já é suficientemente incômodo, e dispensaria tal modo de filmar), mas, mesmo diante de tudo isso, acalmando, cantando e levando um pouco de paz e tranquilidade em meio a tanto medo e terror.

Mas esta mesma câmera nervosa é muito bem utilizada em outros momentos do longa, o que contribui de modo fascinante (e nestes casos a câmera poderia retratar isso) para percebermos a forma como os personagens veem e reagem diante das diversas situações do Jogo. Assim, temos vertigens, desespero, pressa, demonstrados em cortes rápidos e uma câmera inquieta.
E já que falamos de cortes rápidos, vale ressaltar a edição do filme, brilhantemente realizada. É graças à competente edição que o filme jamais cansa ou perde ritmo. Pelo contrário: somos tomados de curiosidade e pelo sentimento de urgência, que nos faz querer saber o que está por vir, cena após cena, mesmo que nenhum fato esteja iminentemente claro. O filme, portanto, não ganha um tom episódico, tão comum em adaptações.
Além da câmera e da edição, a edição de som ganha destaque. E todos esses elementos são cruciais para que nos convençamos daquilo que há de melhor em "Jogos Vorazes": a torcida pelos protagonistas. É por nos importarmos com os personagens que o filme ganha o ritmo e a qualidade que tem. E a escolha de filmar, editar as cenas e o som do modo como vemos é de suma importância para que nós não sejamos meros espectadores dos Jogos, mas possamos sentir a aflição e o desespero de quem está lá naquela mata.
Por isso, o fato de termos a visão distorcida, um zumbido agudo incômodo logo após uma explosão, a perda da qualidade da audição depois de outro acidente qualquer, nos faz viver o filme (e, por consequência, os Jogos), entender que não se trata de um jogo adolescente; e, acima de tudo, compreender que é algo urgente e grave, tão banalizado e assustadoramente espetacularizado.

E por falar em espetáculo, aqui entra uma parte pontualmente interessante deste longa: a morte como espetáculo, o ser humano tratado como um animal irracional e incapaz de refletir sobre a grandeza da vida, a avareza e a inimizade plantadas como sendo a arma única de sucesso e o capital como motor desse show de horrores.
Sentimentos que não são demonstrados só na maneira animalesca com que os Jogos acontecem, mas, especialmente, naquilo que vimos da vida real de cada um dos distritos: pobreza, miséria, fome. Um céu cinzento, construções em ruínas; um povo sem objetivo e sem ideal; pessoas sujas caminhantes em ruas de chão batido e sem acesso nenhum a condições mínimas de saúde e sobrevivência, muito menos a tecnologias.
Em detrimento a isso, observamos uma capital esbanjando luxo, cores, tecnologia, limpeza, riqueza e moda. Esta última exravagante, é verdade. Mas quem pode achar aquilo tudo extravagante se sequer são capazes de perceber a crueldade em tomar por diversão a morte de seres humanos?
Neste aspecto, a direção de arte realiza um ótimo trabalho, assim como a equipe de efeitos visuais, que cria os ambientes mostrados em câmera aberta, revelando a capital em planos aéreos. Deste modo, tudo parece muito provável e palpável, mesmo que exagerado. Somos convencidos de que aquela cultura existe, e o modo como tudo é organizado e mostrado nos convence disso.

Mas estes aspectos técnicos de nada valeriam se não tivéssemos atuações à altura. É por isso que Jennifer Lawrence merece todo o reconhecimento possível por conseguir viver Katniss com tanta expressividade. Uma garota tomada por diversos sentimentos, demonstrados muito felizmente e em nenhum momento alterando a personalidade: ela é dura, corajosa, cruel, astuta, mas consegue parecer frágil, em outros momentos se revela doce e sensível, introspectiva e sociável. E mesmo com toda essa alternância, sempre a mesma Katniss, por quem torcemos e nos importamos.
O romance fictício que ela vive com o garoto Peeta (Josh Hutcherson) também é vivido de modo convincente. Mesmo que o sentimento de Peeta pela companheira não seja correspondido, Lawrence não soa falsa nos momentos que diz se importar com o conterrâneo. E a escolha de não estender o romance, colocando-o como coadjuvante da trama é acertada, pois, com isso, o tom alegórico da trama não é prejudicado por apenas mais uma história de amor entre dois jovens malfadados.

E voltando à parte em que mencionei a previsibilidade como ferramenta principal da falta de qualidade da maioria dos filmes, a simples menção, na parte final do longa, de que ele teria um desfecho previsível, me incomodou. Pois eu havia mergulhado no universo de Panem, e repentinamente fui puxado à realidade e percebi que aquilo tudo poderia ser menos encantador do que era. Como adiantei, estava errado. O desfecho está à altura do filme e nos leva a reflexões interessantes que serão esclarecidas na segunda parte da trilogia.

Ainda assim, há erros graves que comprometem a comprensão dos personagens, do local onde se passa a história e dos próprios Jogos.
Katniss, no início do longa, alerta a mãe para não abandonar a filha, como ela supostamente já tivesse feito outras vezes. E realmente sentimentos essa ausência da mãe na cena de abertura, quando vemos as duas irmãs juntas, sem a mãe. A incompreensão da forma como se estrutura a família Everdeen se torna ainda maior quando vemos flashbacks da protagonista com um acidente que teria matado o pai. Em nenhum momento estas lembranças são explicadas de forma convicente, nem há qualquer fala da protagonista que nos diga se ela pensa constantemente no que aconteceu e na maneira como vive sua família. Ela se preocupa com a irmã - sempre -, mas é só isso. Mesmo que este fato venha a ser esclarecido no segundo longa, ficamos com um ponto de interrogação em mente porque não sabemos o que se passa no contexto familiar da protagonista, embora a personalidade desta nós conheçamos muito bem. Mas... porque ela é assim?
Ao contrário, Peeta fala dos seus dramas e do modo como sua família o encara, e isso é muito bom para que as coisas aconteçam do modo como aconteceram e o coração de Katniss se sensibilize ao jeito do conterrâneo.

Mas os principais defeitos estão mesmo na explicação dos Jogos. Quanto tempo eles duram? Onde eles se passam? É um ambiente natural, é construído, é uma espécie de "cidade cenográfica"? Como aquelas criaturas são criadas digitalmente? Qual o limite de interferância que a produção pode exercer sobre os jogos?
Além de não explicar as regras gerais, não conseguimos compreender nem mesmo aspectos referentes ao jogo específico mostrado no filme. Quanto tempo se passou desde que o sorteio foi realizado até o final do jogo?
E mais: porque foi tomado a decisão de fazer os jogos desta forma? O que é feito para que a população não se canse do mesmo formato em mais de sete décadas de existência da competição? O filme também não esclarece em que os Jogos contribuem - além do tocante à alienação pelo entretenimento - para a passividade da população de Panem com a exploração da Capital. E quando vemos uma revolta em um dos distritos, percebemos o quanto a guarda não é suficientemente forte para evitar uma rebelião e, mais que isso, fica-nos a dúvida do porquê só naquele momento, depois de tantas décadas, alguém resolveu se indignar com a situação. Se argumentarem que "nunca havia tido uma rebelião daquelas", então porque o batalhão (se assim posso chamar) é tão pouco reforçado, e só vemos um aumento no número de oficiais depois que a revolta está acontecendo?
São perguntas que ficam no ar, não são respondidas, e desconstroem todo o magnífico trabalho técnico e artístico realizado para que os Jogos se tornem críveis.

Trabalhando aspectos sociológicos, antropológicos e políticos que rendem discussões acaloradas a respeito de situações atuais e de possíveis alegorias infiltradas na história, "Jogos Vorazes" se revela como uma febre adolescente inteligente, e apesar de estar fazendo tanto estardalhaço comercial (nos EUA) como Crepúsculo, jamais se configura tão medíocre como a "saga" dos "vampirinhos" virgens. (Ah! Não são mais virgens, é verdade!).
O segundo filme parece ser bem instigante pelo que foi demonstrado no desfecho dessa primeira parte. Mas não vou esperar pela adaptação cinematográfica. A trilogia me despertou tamanha curiosidade que os originais merecem lugar na minha prateleira de livros.

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