quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fúria de Titãs 2

O mais cruel de filmes que ambientam seus roteiros nas histórias da mitologia grega (algo assustadoramente mais comum a cada ano) é o desrespeito total aos contos originais. Parece que estúdios e roteiristas encontram, nas antigas crenças, criaturas e personagens perfeitos para suas produções megalomaníacas e descarregam aí suas histórias pensadas pela metade, numa demonstração de preguiça de criar personagens novos e interessantes.
Assim, a cada novo filme, temos diversas versões de Perseu, por exemplo, um dos grandes filhos de Zeus. Aqui, em "Fúria de Titãs 2" (Clash of the Titans 2, EUA, 2012) ele não tem nenhum superpoder de um semideus, a não ser sua força descomunal e a capacidade de enfrentar criaturas grotescas com uma facilidade previsível e o contato com seres mitológicos a qualquer instante, como o Pegasus. Nesta sequência, o filho predileto do Senhor dos deuses precisa impedir o renascer de Kronos, pai dos três deuses supremos (Zeus, Hades e Poseidon). Ajudado por Hades (Ralph Fiennes), Kronos despertaria depois de ter sugado a força de Zeus (Liam Neeson).
No caminho para cumprir sua missão, Perseu (Sam Worthington) vai lutar com ciclopes, um minotauro e com seu irmão Ares (Édgar Ramírez), que trai Zeus simplesmente porque este prefere Perseu a ele. No meio de uma disputa familiar, o despertar de Kronos pode destruir com todo o universo, dizem.

Ora, na mitologia grega, Kronos não é uma criatura gigantesca irracional composta de lava de vulcão. Ele é representado de forma humana, da mesma forma que os demais deuses.
Outro erro do filme é atribuir à falta de fé dos homens a perda dos poderes dos deuses. De acordo com o argumento do longa, como os humanos não rezam mais aos deuses, estes estão prestes a morrer. E desde quando deuses morrem como se fossem baterias não carregadas? E quem reza a Hades? Porque, sendo ele também um deus, ele não tem a força vital ligada às orações dos mortais?
Além de contrário à mitologia, o filme soa contraditório, já que ele mostra as pessoas rezando aos seus deuses de devoção.

E quando Perseu proíbe seus companheiros de rezar a Ares, dizendo que, assim, ele os encontraria, o filme não explica por que só uma pessoa em toda a Grécia estaria rezando para ele ou o porquê de Ares conseguir identificar que aquela prece tem origem justamente do local onde está seu irmão odiado.

Apesar disso, os efeitos visuais são extremamente bem realizados, a trilha sonora consegue ser parte do filme, jamais sendo intrusiva ou pontuada demais. A fotografia e a direção de arte são eficientes, as cenas de ação muito convincentes e o 3D é o melhor motivo para compensar a ida ao cinema. E arrisco dizer que este filme só vale ser visto se for em 3D.

É uma pena que tanto desastre se justifique apenas por uma mera briga familiar e as criaturas mitológicas sejam utilizadas da forma como convém aos realizadores, jamais justificando porque tamanha afronta aos mitos originais.
 

9 comentários:

  1. E você ainda deu 3 estrelas?

    Assisti ao primeiro apenas e só isso me basta para não ir ao cinema assistir à continuação.
    O primeiro é horrível, fraquíssimo e extremamente deturpado.

    O mesmo ocorreu com Imortais. Super-efeitos e história... aliás, que história?

    Seria interessante se resolvessem refilmar as velhas histórias mitológicas verdadeiras. Aí sim eu iria ao cinema com prazer. Mas essas "adaptações" do velhos mitos me enojam!

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  2. Na verdade o nome original do filme é "Wrath of the Titans".

    E não concordo ao que você chama de "erro do filme". Apesar de ainda não ter assistido, não acho que seja um erro os "deuses baterias" ou de Kronos, é apenas uma representação ruim da mitologia grega, assim como vampiros brilhando não é erro, e sim uma representação péssima da mitologia vampírica.

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    1. O cara destrói um mito que dá certo há 6 mil anos para criar uma história rasa que não dá certo. Isso não é um erro?

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  3. É algo de extrema idiotice, mas não é um erro se foi algo que saiu como o "cara" desejou.

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  4. Acho que é um erro, sim, André. Se a ideia é criar "deuses bateria" então que INVENTASSE uma história. Vender o filme como sendo fruto dos mitos gregos está errado. AQUILO não é mitologia grega.

    E Snaga; as 3 estrelas devem-se ao 3D (muito bom mesmo) e aos efeitos. Tecnicamente, o filme funciona. Como sempre diz Pablo Villaça: as estrelas são algo muito subjetivo.

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  5. Então quer dizer que Amadeus, um dos melhores filmes de todos os tempos, vencedor de 8 Oscar, é um filme errado?


    E se vale 3 estrelas pela parte técnica você quer dizer que Transformers é 5 estrelas, então? :P

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  6. André, pela parte artística, eu daria 2 estrelas. Mas como a parte técnica ajuda de modo interessante a contar a história (por mais que ela tenha falhas), acrescentei uma estrela.

    A parte técnica de Transformers não ajuda em nada na narrativa. Apenas bagunça ainda mais com a intenção de ficar mais explosivo.

    E quanto à sua comparação com Amadeus, não penso de seja a mesma coisa. Amadeus trata de personagens que existiram para construir uma trama fictícia, assim como em Titanic, por exemplo (o navio e alguns personagens existiram. Mas Rose e Jack não). E isso não invalida o filme.
    Mas aqui estamos falando de mitos. É como se alguém bagunçasse o que você conhece por Hogwarts e o que eu conheço pela Terra-média. E, se você prestar bastante atenção, a minha crítica não se refere somente à afronta que o filme faz aos mitos, mas também (e principalmente) ao fato de as explicações do filme não se sustentarem. Assim, se um deus perde a força porque não rezam mais pra ele, todos deveriam perder. Da mesma forma, se o povo não reza mais porque esqueceram dos deuses, não deveria mostrar ninguém rezando.
    Além da tempestade que se forma (figurativamente falando) só porque um irmão não vai com a cara do outro por ciúmes. É um argumento muito fraco para tanto estardalhaço. E onde está a "Fúria de Titãs" aí?

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  7. Mas Amadeus altera totalmente a personalidade de Salieri, mostrando ele como um músico que tem um misto de amor e inveja pelo Mozart, sendo que, na verdade, Mozart teve aulas com Salieri. E eu entendi o que você quis dizer com a parte da reza e tal, e, como ainda não assisti, nem posso falar nada, contra ou a favor. Mas me referia especificamente ao visual de Kronos, que você citou como erro. Pelo exemplo que dei acima, a mudança da personalidade Salieri seria um "erro" mais grave do que uma mudança visual, partindo do seu ponto de vista.

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  8. E, a propósito, a trama de Titanic se passa num evento real com protagonistas fictícios. Amadeus também usa alguns eventos reais E personagens reais.

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