quarta-feira, 7 de março de 2012

A Dama de Ferro

"A Dama de Ferro" (The Iron Lady, Reino Unido/EUA, 2011) poderia, facilmente, se chamar "Uma Noite com Margareth Tatcher". E se esse título parece menosprezar a intenção e o alcance que o filme pretende ter, ainda assim, não estaria exercendo mal o seu papel como título condizente à realidade do filme.

Num projeto que pretende contar a história da ex-premiê britânica, o que vemos, na verdade, é um excesso de liberdade dramática que apresenta uma personagem real e viva de forma ofensiva. Afinal, é difícil acreditar que a verdadeira Tatcher seja, por si mesma, capaz de curar sua demência, controlar as alucinações e passar noites sem dormir enquanto tem visões do passado.

É incômodo, portanto, perceber que a estrutura narrativa escolhida pelo roteirista Abi Morgan prejudique tanto a linearidade do longa. Isso acaba por nos deixar perdidos. Afinal, por que uma governante tão impopular conseguiu ficar tanto tempo no poder? Em que circunstâncias aconteceu a Guerra das Malvinas? Que acontecimentos motivaram o caos econômico do país?
O roteiro não contextualiza os fatos e os apresenta como mero fruto do acaso. Isso acaba por prejudicar a construção dos personagens, especialmente da protagonista, que jamais têm um perfil definido: afinal, ela é uma mulher forte porque conseguiu quebrar as barreiras de classe e gênero em um mundo dominado por homens (como diz a sinopse oficial), ou é apenas uma mulher mesquinha e inconsequente incapaz de entender as necessidades do seu povo e, por isso, mergulha todos numa realidade dura de sofrimento, altos impostos e desemprego?

Indubitavelmente, "A Dama de Ferro" não pode servir como uma cinebiografia. Mesmo o mais desentendido da história recente da Europa não consegue sentir confiança na maneira como os fatos são relatados. O filme, por fim, acaba se revelando pedestre na tarefa de contar uma história real, e quando parte para a ficção, também o faz de maneira trôpega e ofensiva.

Apesar de tudo, temos Meryl Streep, brilhante em todos os momentos e única responsável por tornar o filme "assistível". Do auge da vitalidade à fragilidade da velhice, os maneirismos, gestos, tom de voz e postura, tudo colabora para que Tatcher seja representada da maneira mais fiel possível. O peso da voz, o sotaque britânico e a mudança gradual no seu timbre (auxiliada por um fonoaudiólogo, por a julgarem estridente demais ao falar), Streep consegue evoluir uma personagem que o roteiro não permite que evolua.
Além de Streep, merecido reconhecimento recebeu a equipe de maquiagem, que auxiliou ainda mais o trabalho da atriz e conferiu à protagonista o aspecto físico ideal para bem representar os diferentes momentos da vida da ex-premiê.

Pena a direção ser tão mal realizada. E o roteiro ser tão simplista e ignorante.


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