sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Lula - o Filho do Brasil

Antes de mais nada temos que compreender que fazer um filme-biografia não é tarefa fácil. Outra tarefa que exige muito cuidado são adaptações de livros para o cinema. Em "Lula - o Filho do Brasil", Fábio Barreto se arrisca nesses dois pontos. E o resultado é aquele de quem não consegue fazer nenhuma dessas duas coisas direito: um filme sem ritmo e altamente episódico e desinteressante.
A estrutura narrativa parece último capítulo de novela: as cenas tendo que ser explicadas por diálogos e ocorrendo em poucos minutos pra dar conta de toda a história. E ao passo que Barreto procura deixar Lula sem ideologias políticas pra não tornar o filme um longa-propaganda política, também não faz bem os momentos em que o menino-Lula ainda está longe da carreira sindical.

A infância de Lula é rápida: não sentimos a vida sofrida no nordeste nem a árdua viagem do sertão de Pernambuco para São Paulo. A não ser por uma vaca magra morta na estrada e o falecimento de uma das passageiras do caminhão que fazia o trajeto. Vemos um Lula cheio de irmãos, mas nenhum é mostrado, nenhum fala nada e não é, em nenhum momento, desenvolvido um contexto de família, de amor entre os irmãos e a mãe.

Já o pai de Lula é somente um bêbado representado de forma caricata. Não deu de conhecermos exatamente como o personagem era; e se ele era só aquilo, faltou contar mais o drama que a família vivia por conta do alcoolismo do chefe da casa.

Quando Lula consegue um emprego, depois de diplomado, o filme parece que, enfim, vai engatar a segunda marcha, mas aí ele vira líder sindical e Barreto consegue cometer pecados históricos (como o tratamento brando da polícia em pleno regime militar) e o excesso de discursos em detrimento do empobrecimento da história. O filme torna-se tedioso e tem um fecho incrivelmente sem emoção, de modo que não sentimos alegria, nem nos passe pela cabeça algo como "puxa, ele mereceu!"; aquelas coisas típicas de histórias desse tipo.

Como se não bastasse, a fotografia é sofrível. Gustavo Hadba, o diretor de fotografia, exagera em ambientes escuros, pouco iluminados, sem nenhuma necessidade. Barreto abusa de retratar as cenas nos espelhos ou reflexos dos vidros, sem que isso contribua alguma coisa na narrativa. Além da inquietante cena que a câmera sai da boca do pai de Lula gritando pra dona Lindu não o deixar, enquanto esta se afastava com a família, de barco, fugindo do marido bêbado.

Se Barreto não quisesse retratar um Lula político, então que focasse na sua infância, mas isso não é feito. Em compensação, abusa de discursos que até podem ter sido importantes, mas que não contribuem com o filme. Excessão pra maravilhosa cena do mega protesto no estádio de São Bernardo do Campo.

Mas, apesar de tudo, o filme tem seus acertos. A mescla de cenas de arquivo, reais, com as gravadas, são muito bem ultilizadas. E o elenco, apesar de muitos ficarem perdidos pela falta de atenção que o roteiro dá aos coadjuvantes (leia-se figurantes), se esforça. Cléo Pires sai muito bem como a primeira mulher de Lula, Juliana Baroni também tem um bom desempenho como a dona Marisa e a rápida passagem de Lucélia Santos como a professora de Lula demonstra o talento (disperdiçado) da atriz.

Mas os destaques mesmo ficam para os protagonistas, que não deixaram o filme ser uma catástrofe total, e que fazem, pelo menos, que compense ver o longa pelas atuações desses atores. A começar pelo desconhecido Rui Ricardo Diaz que tem a tarefa dificílima de encarnar um personagem que conhecemos, portanto, ele não poderia ir muito longe com a imaginação. E o pior: fugir da caricatura, que tantos programas de humor usam para retratar o presidente. Diaz muda o timbre de voz aos poucos até chegar àquele com qual estamos habituados e capricha nos movimentos bruscos com os braços, frequentes nos discursos acalorados de qualquer líder sindical, e por consequência, do nosso presidente.

E por último, mas não menos importante (aliás, é a mais importante), Glória Pires como Lindu, a mãe de Lula. Grande parte de toda a emoção que sentimos no filme é por causa dela, já que o roteiro, por si, não permitiria. Sentimos nela a submissão ao marido, por ser mulher, mas ao mesmo tempo seu instindo de mãe protetora, mulher forte e destemida, que é capaz de largar tudo no sertão pra tentar vida melhor com a família e depois largar tudo em Santos pra fugir do marido alcóolatra.

Nos emocionamos junto com ela quando Lula consegue seu diploma no curso técnico e é incrível como Glória Pires consegue ir desenvolvendo aos poucos até a debilidade da mãe do protagonista.

O problema é que aproveitaram pouco todo esse monstruoso talento. Tudo bem que o filme era de Lula, e não de dona Lindu, mas o que nós vemos na telona é um Lula que não tem afeto pelos irmãos (pois poucos deles falam) e dona Lindu parece só se importar com Lula. Mas o erro não é nem de Diaz nem de Pires, é do roteiro.

Pra compensar toda a falta que dona Lindu fez na família e na vida de Lula, e que o filme não retratou, Barreto usa de flashbacks no enterro da personagem, criando um melodrama dispensável, caso tudo tivesse sido feito melhor.

O problema não é Lula ainda ser presidente, nem o filme parecer eleitoreiro. Afinal a vida do atual chefe da nossa nação é sim digna de cinema. O triste disso tudo é que Barreto não soube contar essa história. É lamentável. Talvez esse resultado se deva ao medo de ser criticado como um diretor pró-Lula. Chegamos a questão: não se faz um filme com medo. O resultado pode ser este: ter que se explicar ao longo de todo o filme e ser salvo, unicamente, por alguns grandes nomes do elenco.

2 comentários:

  1. O primeiro parágrafo já tirou a minha vontade de ver o filme no cinema. Pelo visto eu verei só em DVD, e somente pela atuação da Glória.

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  2. Bah até tava afim de ver ele...
    Que???
    "...deixar Lula sem ideologias políticas ..."
    Aí ferrou então...
    Nossa! E tem gente que diz que o filme era
    uma campanha antecipada, pode até ter sido
    a intensão mas foi mal elaborada pelo jeito.
    Poxa quase chorei vendo o filme dele "Entre atos"
    (tá não foi para tanto, mas eu recomendo).
    Poxa é uma pena mesmo o erro ser de roteiro.
    Bom tô sem vontade de ver agora...
    Abraços. Verônica Elias

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