segunda-feira, 9 de março de 2009

O Menino da Porteira

Até tentaram fazer barulho, mas parece que o filme não empolgou muito, não. Parece-me que 70% das salas de cinema do país estão exibindo o novo filme de Jeremias Moreira Filho, mas nem encontrar uma crítica do filme nos sites mais conhecidos da rede está fácil.
Pra mim não é difícil falar de O Menino da Porteira (Brasil, 2009), afinal, minhas raízes são do "sertão de Santa Catarina". Cresci na cidade de Imaruí, no Sul do Estado, que guarda paisagens parecidas com as mostradas no filme. A preferência pela música sertaneja na família fez-me crescer com essa "raíz", digamos assim, presente em mim. Por isso me empolguei bastante ao ir no cinema e não teria problema nenhum em ver o filme, por mais caipira que ele fosse.
Mas muito mais que familiaridade com o universo sertanejo, está presente em mim o senso de bom cinema (um pouco, talvez) e por isso foi confortável pra que eu fizesse as ponderações e reflexões necessárias.
O longa conta a história de Diogo (Daniel), um boiadeiro que viaja pelo mundo no exercício. Num de seus trabalhos, foi levar ao Major Batista (José de Abreu), da fazenda de Ouro Fino, no interior de São Paulo, uma grande quantidade de cabeças de gado. Mas lá ele faz amizade com Rodrigo (João Pedro Carvalho, excelente atuação), o menino da porteira, filho de um dos moradores da região cansados da exploração do Major. Quando a comunidade se une para vender seus gados diretamente ao frigorífico e escapar das injustiças no pagamento e da autoridade do Major, uma briga feia se instala naquelas paragens e Diogo, até então pacato e neutro na história, decide tomar partido.
O filme é baseado na música de Teddy Vieira e intepretada posteriormente por Sérgio Reis. Daí, pela popularidade da música, já vemos a maior fraqueza do filme: a previsibilidade. É só fazer uma pesquisa em um site de letras musicais, ou ter conhecimento da canção para adivinhar o fim da história. Mas isso poderia ser superado com um bom enredo? Sim, poderia. Mas não o faz.
O Menino da Porteira é um filme exageradamente caipira. Isso não seria ruim - já que é o objetivo claro do diretor - se ele não se tornasse um "clipe gigantesco". Nas primeiras tomadas, acompanhamos Diogo tocando a boiada pelo sertão ao som de uma canção que auxilia na apresentação dos créditos. Isso não prejudica nada. Depois, Diogo, antes de dormir, pega a viola e canta para a noite, com os seus preparando o acampamento. Também nada mau, se a música não fosse cantada inteira. Chega um momento nessa música que ela não contribui mais pra nada, apenas obriga o filme a fazer um monte de tomadas em lugares diferentes que não contam nada, esperando a canção terminar. E assim são todas as outras músicas que aparecem no filme adiante (e que não são poucas).
Daí a trilha sonora que deveria ajudar a casar com as belas imagens, com a fotografia explêndida e as felizes locações do filme, acaba o tornando chato e enfadonho, pois a história se obriga a parar para esperar o fim das "modas de viola". E o propósito do filme não é ser um musical.
A cena que mais me enquietou é a que, no mesmo tempo onde os moradores do lugarejo decidem se vão ou não enfrentar o Major, Diogo canta "Disparada" numa sala à parte e paralelamente, a casa de um dos sertanejos está sendo queimada pelos capangas do vilão. A música cantada durante a cena não combina com o incêndio e a tensão da cena, mas sim com a discussão dos sertanejos. Então que separassem a cena: fizessem primeiro a discussão ao som de "Disparada" como um momento de trunfo, e logo depois o incêndio da casa, que ajudaria muito mais na construção e condução da história.
Com tudo isso, o filme demora a passar para a segunda marcha. Ele fica morno tempo demais e só ganha ritmo perto do fim, quando Diogo toma a decisão de conduzir os gados dos sertanejos. Aí o filme entra num misto de romance, western, ação e um bom drama, e ganha fôlego e começa a ficar interessante. Os personagens começam a ficar bem definidos e o humor começa a refinar-se. Mas daí já é tarde demais.
Rosi Campos está maravilhosa no filme, o menino da porteira igualmente. Vanessa Giácomo foi mal aproveitada e Daniel esforçou-se, ficou na sua e - felizmente - não foi ridicularmente usado por ser "pop".
O esforço visível para fazer um bom filme está ali. O avanço no cinema nacional também. E apesar de eu parabenizar empresas como a Pernambucanas por patrocinarem a cultura nacional investindo em produções desse tipo, me incomoda o excesso de mershandising e - extremamente forçado - a porteira escrito em amarelo "Casas Pernambucanas".
O Menino da Porteira não me decepcionou. Mas o cinema nacional ainda não me convenceu.

2 comentários:

  1. Olá meu querido amigo
    Passando aqui também para deixar um forte abraço.
    Belas palavras sovre o filme
    Me deixou curioso para assistir
    Abraços
    Ju pqn

    ResponderExcluir
  2. POis agora... eu até tinha vontade de assistir, mas não tenho sido um frequentador de cinemas já há um bom tempo. Te contrataria para crítico de cinema, que tal colocar isso no seu curriculum?

    ResponderExcluir

Qual sua opinião sobre este filme? E sobre esta crítica? Comente! Deixe a sua opinião! Participe!