quarta-feira, 7 de março de 2012

A Dama de Ferro

"A Dama de Ferro" (The Iron Lady, Reino Unido/EUA, 2011) poderia, facilmente, se chamar "Uma Noite com Margareth Tatcher". E se esse título parece menosprezar a intenção e o alcance que o filme pretende ter, ainda assim, não estaria exercendo mal o seu papel como título condizente à realidade do filme.

Num projeto que pretende contar a história da ex-premiê britânica, o que vemos, na verdade, é um excesso de liberdade dramática que apresenta uma personagem real e viva de forma ofensiva. Afinal, é difícil acreditar que a verdadeira Tatcher seja, por si mesma, capaz de curar sua demência, controlar as alucinações e passar noites sem dormir enquanto tem visões do passado.

É incômodo, portanto, perceber que a estrutura narrativa escolhida pelo roteirista Abi Morgan prejudique tanto a linearidade do longa. Isso acaba por nos deixar perdidos. Afinal, por que uma governante tão impopular conseguiu ficar tanto tempo no poder? Em que circunstâncias aconteceu a Guerra das Malvinas? Que acontecimentos motivaram o caos econômico do país?
O roteiro não contextualiza os fatos e os apresenta como mero fruto do acaso. Isso acaba por prejudicar a construção dos personagens, especialmente da protagonista, que jamais têm um perfil definido: afinal, ela é uma mulher forte porque conseguiu quebrar as barreiras de classe e gênero em um mundo dominado por homens (como diz a sinopse oficial), ou é apenas uma mulher mesquinha e inconsequente incapaz de entender as necessidades do seu povo e, por isso, mergulha todos numa realidade dura de sofrimento, altos impostos e desemprego?

Indubitavelmente, "A Dama de Ferro" não pode servir como uma cinebiografia. Mesmo o mais desentendido da história recente da Europa não consegue sentir confiança na maneira como os fatos são relatados. O filme, por fim, acaba se revelando pedestre na tarefa de contar uma história real, e quando parte para a ficção, também o faz de maneira trôpega e ofensiva.

Apesar de tudo, temos Meryl Streep, brilhante em todos os momentos e única responsável por tornar o filme "assistível". Do auge da vitalidade à fragilidade da velhice, os maneirismos, gestos, tom de voz e postura, tudo colabora para que Tatcher seja representada da maneira mais fiel possível. O peso da voz, o sotaque britânico e a mudança gradual no seu timbre (auxiliada por um fonoaudiólogo, por a julgarem estridente demais ao falar), Streep consegue evoluir uma personagem que o roteiro não permite que evolua.
Além de Streep, merecido reconhecimento recebeu a equipe de maquiagem, que auxiliou ainda mais o trabalho da atriz e conferiu à protagonista o aspecto físico ideal para bem representar os diferentes momentos da vida da ex-premiê.

Pena a direção ser tão mal realizada. E o roteiro ser tão simplista e ignorante.


sexta-feira, 2 de março de 2012

A Mulher de Preto

O personagem de Daniel Radcliffe está triste. Na lembrança, o luto pela morte de uma pessoa querida. Tentando tocar a vida, ele entra em um trem partindo para uma cidade longínqua da agitada Londres. Antes de embarcar, porém, ouvimos a frase: "Você tem os olhos da sua mãe". Chegando ao destino, por onde quer que passe, todos olham para ele com espanto e estranheza.

Sim, queridos leitores. A saga de Harry Potter já terminou e nosso querido Radcliffe está tentando seguir com a carreira em frente, tentando provar que ele pode ser ator além de bruxo.

E não. Eu não relatei um trecho de qualquer filme do Harry Potter.

E também não. Não é este "A Mulher de Preto" (The Woman in Black, Reino Unido, 2012) que fará o jovem ator se desvencilhar da imagem carimbada em sua testa de bruxo de Hogwarts; pois, como vocês puderam perceber, o longa é cheio de citações e situações que remetem um filme a outro.

Mas as semelhanças estão somente nos detalhes. Aqui, Radcliffe é Arthur Kipps, um jovem advogado com o emprego em risco por estar rendendo menos na firma onde trabalha. O motivo é a morte da sua esposa, que ocorreu durante o parto do seu pequeno filho.
Para provar sua competência, Kipps é enviado a uma cidade no interior da Inglaterra para cuidar dos documentos de um ex-cliente recém-falecido. O problema é que a cidade vive à sombra da lenda do espírito de uma mulher que, supostamente, é o responsável pela morte das crianças daquele lugar.
Agora, Kipps terá que usar de coragem para realizar seu trabalho com competência e procurar entender o que atormenta o espírito da finada.

A fotografia é muito bela, a edição e mixagem de som são impecáveis e indispensáveis na tarefa de nos causar muitos sustos. E quantos sustos! A direção também é bem realizada, especialmente porque cria um clima de tensão que beira ao insuportável, além de nos prender na trama, levando-nos a - junto com Kipps - tentar descobrir o que está por trás da morte das crianças e por que a mulher do título assombra a cidade.
A direção de arte é incrivelmente bem executada (apesar de ter pensado a casa quase que como uma sósia da escadaria de Hogwarts, inclusive com os quadros bem-emoldurados na parede). Os brinquedos abandonados no casarão assombrado não parecem nem um pouco amigáveis e todos os objetos evocam o gótico.

Apesar de bem executado na parte técnica e ter mentes criativas interessantes na criação dos ambientes, o mesmo não se pode dizer do roteiro. A história poderia, facilmente, se resolver em um curta metragem. É cansativo vermos, por intermináveis minutos, Kipps subindo e descendo as escadas, intercalando com um susto aqui e um clima de tensão ali.
Da mesma forma, embora atormentado com a perda recente da esposa e a desconfiança da existência de fantasmas, Kipps decide trabalhar sozinho, à noite, porque é quando consegue produzir melhor, diz ele. Além de ilógico, é um pretexto clichê para que sejamos tomados por mais alguns momentos de sustos e medinhos.

Medinhos, não! Se não causa uma tensão insuportável em todos os espectadores, pelo menos é inegável a quantidade de sustos que o filme é capaz de nos proporcionar. Ainda assim, é isso que ocupa a maior parte do tempo neste filme, o que empobrece a história, que jamais ganha uma profundidade e uma complexidade palpáveis e não se aprofunda no drama de cada uma das pessoas daquela localidade que convivem com tal assombro por anos.

Desta forma, se for para levar sustos, é mais proveitoso ir a um trem-fantasma. Pelo menos não somos obrigados a aguentar uma história rasa por mais de uma hora e meia com o único propósito de passar um pouco de medo e levar alguns pulos.
Se lá, no trem-fantasma, não tiver Radcliffe, eu assisto Harry Potter depois. Taí um programa mais divertido que "A Mulher de Preto".


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas

Diriam os racistas (enrustidos, claro; como sempre!) que o preconceito contra negros não existe mais. Os pseudo-críticos falariam que é algo que não rende histórias porque há tempo já sabemos que isto é ruim. O que estes grupos ignoram é que o preconceito racial vai muito além do "existe/não-existe", ou do "rende/não-rende". Aqui está em jogo outra série de discussões, tais como igualdade, respeito, compreensão e solidariedade. São reflexões positivas que, parece, muita gente não gosta de sentir ou vivenciar, por isso são tão enfáticos ao criticar obras que cedem generoso espaço a estes tipos de atitudes e sentimentos. E este "Histórias Cruzadas" (The Help/ EUA/ 2011) está cheio deles.

O longa, escrito e dirigido por Tate Taylor, acompanha a tragetória da jornalista recém-formada Eugenia Skeeter (Emma Stone) que, após voltar à sua cidade natal, consegue um emprego no diário local e passa a escrever em uma coluna com dicas de limpeza doméstica.
É aí que ela tem o primeiro contato com Aibileen (Viola Davis), empregada de uma de suas "amigas" da socialite de Jackson, Mississipi, estado sul-americano assustadoramente racista. É esta que lhe empresta algum tempo de atenção durante o dia de trabalho para responder às dúvidas das leitoras da coluna de limpeza.
Mas a sensibilidade de Skeeter fica mais aguçada quando ela se dá pela falta da empregada que havia trabalhado com sua família durante 30 anos e, misteriosamente, se mudara para longe. Com isso, a jovem jornalista decide escrever um livro contando as histórias de cada uma daquelas empregadas negras; sobre a forma que elas eram tratadas e as situações que viviam ao cuidar da casa e dos filhos dos brancos e não poderem, sequer, usar o mesmo banheiro destes.

O primeiro grande trunfo deste longa é o design de produção e direção de arte. O figurino também ganha destaque especial. Mas é a trama que se estabelece como o chamariz principal de "Histórias Cruzadas".
Mesmo precisando de Skeeter como intermediária para que as histórias de cada uma daquelas mulheres se tornem públicas (e é a jornalista, branca, quem tem a iniciativa), o principal exemplo de coragem vem das empregadas, negras, que se arriscam num estado de leis injustas para os negros (que os proibia - até mesmo - de serem tratados como iguais). Arriscam-se ao contar as histórias - nem sempre positivas - acerca de suas experiências profissionais e da forma como eram tratadas.

Como se não bastasse, ainda temos a vilã-mor, vivida por Bryce Dallas Howard, que, num acesso revoltante de cinismo, promove uma campanha para aprovação de uma lei que obrigue brancos a construírem banheiros externos e separados para seus empregados negros no mesmo instante que lidera outra corrente, de arrecadação de fundos em benefício à crianças africanas.

Em certo momento, um personagem diz à Skeeter: "Tudo está bem. Por que criar problemas?". No que a jornalista responde: "Porque o problema já existe". Ou seja, o problema está ali do lado, e para se fazer de solidária, a megera vilã (que está longe de ser caricata) prefere ser uma bem-feitora para crianças do outro lado do Atlântico.

A propósito, por mais vilã que a personagem de Howard seja, por mais cômica que a Minny (de Octavia Spencer, ótima) também seja - apesar dos seus dramas domésticos -, o roteiro é feliz ao destacar, humanizar e dar uma dimensão mais palpável e real acerca da personalidade de cada personagem. Por isso que compreendemos que o preconceito está na alma de uma pessoa, e não é externado unicamente na forma de racismo: a não-aceitação das socialites de Jackson à Celia, a nova-rica do filme, demonstra que, na verdade, aquelas dondocas querem apenas estar entre iguais, sem aceitar as diferenças. E notemos quão sublime é o comportamento de Celia com Minny, a tratando como igual e reconhecendo nesta um valor até então não percebido, muito menos reconhecido, pelas suas antigas patroas.

Pecando apenas por conta de uma personagem (a mãe de Skeeter) que, ao contrário de todos os outros personagens, não tem uma personalidade definida (ela oscila entre momentos de racismo e outros com a mais alta conscientização a respeito da situação dos negros), "Histórias Cruzadas" já é candidato irrefutável a um lugar na minha prateleira de DVDs.
E que me chamem de racista os críticos de cinema que, incapazes de distinguir uma emoção sincera e natural de qualquer ser humano em dadas situações, encaram cenas de despedida e desprezo aos negros como forçassão de barra e melodrama.

Se este fosse um filme "feito para chorar", não haveria comédia, Minny seria estratosfericamente apresentada como uma pobre-coitada incapaz de decidir sobre o seu destino e a narradora da história não seria uma negra.

Já dizia uma senhora - negra - que atendi no cinema estes dias: "A sala está vazia porque as pessoas não gostam de histórias de negros. E ainda dizem que racismo não existe".
O pior é saber que nem críticos de cinema - ditos intelectuais - não querem que este filme seja visto.

Se você não é racista, assista "Histórias Cruzadas".


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os Descendentes

"Os Descendentes" (The Descendantes, EUA, 2011) é a prova do desespero que a Academia, aparentemente, se departou ao elencar a lista de filmes para concorrer à estatueta do Oscar. Ou isso, ou os critérios para a maior premiação do cinema mundial estão realmente falhos.
Não me refiro aos demais indicados (até porque não vi todos). Mas o fato deste novo filme de Alexandre Payne estar na lista dos concorrentes a Melhor Filme me preocupa profundamente. "Os Descendentes" não tem história, nem clímax e nem mesmo boas razões para ser visto. Fraco. Muito fraco.

O longa conta a história do advogado Matt King (George Clooney), que precisa lidar com várias situações tensas que resolveram tomar conta da sua vida de uma só vez: sua esposa, Elizabeth, sofreu um acidente de barco e está à beira da morte no hospital; sua família nutre um relacionamento familiar interesseiro para vender terras que há séculos pertencem à família, e cabe a King a tarefa de assinar a decisão final sobre a venda desse milhonário pedaço de terra; sente-se forçado a estreitar os laços com suas filhas adolescentes problemáticas e, ainda por cima, precisa conviver com a descoberta de ter sido traído por sua quase-finada mulher.

Ambientado no Havaí, o filme é uma adaptação do livro de Kaui Hart Hemmings. Adaptação muito mal feita, por sinal. O filme é mais longo que o necessário e em nenhum momento nos surpreende com uma cena verdadeiramente interessante.
Na primeira parte da projeção, vemos King nos localizando sobre sua vida e sobre seus conflitos atuais. Além de, particularmente, detestar narração em off (a não ser em casos específicos, por entender que um filme é uma obra genuinamente visual, e a narração em off empobrece a história contada no cinema), ela não contribui e soa dispensável, já que as situações descritas pelo protagonista no seu - me permitam definir desta forma - monólogo, soam mais interessantes que todo o restante da fita.
Isso compromete o filme, já que percebemos, logo de início, a falta de criatividade necessária para que o filme siga adiante. Nos 115 minutos intermináveis de projeção, nos deparamos com gags cômicas infelizes, que fazem piada em cima da situação de Elizabeth, com uma perseguição patética pelo amante da enferma. E só.

Apesar de contar com personagens descartáveis - como o "amigo" de Alexandra (Shailene Woodley), filha de King - a única coisa em "Os Descendentes" que faz valer a pena o ingresso é o elenco. As atuações são belíssimas. Desde Clooney, que confere a complexidade necessária ao seu personagem, exibindo sentimentos e comportamentos que o próprio filme não transparece, até a filha do protagonista, vivida por Woodley, que encarna a primogênita de King como uma naturalidade impressionante: por mais que tenha os problemas típicos - e outros agravados pela situação familiar - de uma garota de 17 anos (como a necessidade de um amigo para se sentir mais segura, a busca por mecanismos de fuga, como o álcool, para esquecer dos problemas), exibe uma maturidade fascinante ao ajudar o pai nas suas tarefas - por mais tolas que elas sejam; e aqui não me refiro a decisões tolas do protagonista, mas às decisões tolas que o roteiro faz o protagonista perseguir.

Da direção de Payne, o que resta de bom são as locações, muito bem aproveitadas e que embelezam o longa, além de contrastar com o momento difícil da família King. Mas nem isso ganha notoriedade, já que, com as gags cômicas e a falta de velocidade, os "respiros" que poderiam ser proporcionados pelas cenas com belas paisagens do Havaí tornam-se apenas um objeto de decoração.
Pra piorar, o desfecho não justifica o título, dizendo muito pouco (ou nada) sobre a situação das terras herdadas pela família.

Repito: sorte do filme é ter as atuações que têm. Caso contrário, estaria fadado a virar mero sonífero.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Prêmio Set Sétima 2011

"Invasão em Los Angeles" é uma aula
de como não fazer filmes
Depois de um verdadeiro abandono do Set Sétima nos últimos meses, este blogueiro que vos fala resolveu voltar. Um tanto por conta da obrigação, é verdade. O mínimo que um blog de cinema deve se prestar a fazer é realizar um levantamento dos filmes que foram projetados na tela grande ao longo do ano. Já que nem todos receberam comentários por aqui (eu me mordo por não ter escrito, por exemplo, sobre "Cisne Negro", ou "Bravura Indômita"), os melhores e piores de 2011 vão dar as caras por aqui; agora.

Como sempre o critério é o menos criterioso possível: eu mesmo, munido do meu achismo, opino sobre os filmes que eu assisti no cinema em 2011. A lista dos concorrentes é a seguinte:

* 72 horas
* Aém da Vida
* Enrolados
* Incontrolável
* O Turista
* Bravura Indômita
* O Discurso do Rei
* Bruna Surfistinha
* Cisne Negro
* Invasão do Mundo - Batalha em Los Angeles
* Sucker Punch
* Rio
* A Garota da Capa Vermelha
* Uma Manhã Gloriosa
* Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas
* Qualquer gato vira-lata
* X-Men Primeira Classe
* Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
* Cilada.com
* Os Smurfs
* Super 8
* Conan - O Bárbaro
* Amanhecer - Parte 1
* Compramos um Zoológico
* Missão Impossível - Protocolo Fantasma

E os premiados foram os seguintes:

"Bravura Indômita". A prova de que
filmes "western" não saíram de
moda.

Melhor filme: Cisne Negro
Melhor diretor: Darren Aronofsky, por "Cisne Negro"
Melhor ator: Jeff Bridges, por "Bravura Indômita"
Melhor atriz: Natalie Portman, por "Cisne Negro"
Melhor ator coadjuvante: Matt Damon, por "Bravura Indômita"
Melhor atriz coadjuvante: Mila Kunis, por "Cisne Negro"
Melhor trilha sonora: Harry Potter 7 - Parte 2
Melhor animação: Rio
Melhores efeitos especiais: Planeta dos Macacos - A Origem
Melhores efeitos sonoros e som: Harry Potter 7 - Parte 2
Apesar da pouca leva de filmes
realmente bons em 2011, "Harry"
não figurou entre os melhores
Melhor figurino: O Discurso do Rei
Melhor direção de arte: Harry Potter 7 - Parte 2
Melhor maquiagem: Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas
Melhor roteiro original: Cisne Negro
Melhor roteiro adaptado: Harry Potter 7
Melhor fotografia: Cisne Negro
Melhor filme nacional: Bruna Surfistinha
Pior filme: Invasão do Mundo - Batalha em Los Angeles
Pior ator: Aaron Eckhart, por "Invasão do Mundo"
Pior atriz: Amanda Seyfried, por "A Garota da Capa Vermelha"
Piores efeitos especiais: A Garota da Capa Vermelha
Pior filme nacional: Cilada.com

 
"Cisne Negro", a grande injustiça
do Oscar do ano passado. O "Set",
porém, consertou isso

"Cisne Negro", pra mim, foi a maior injustiça do Oscar no ano passado. "O Discurso do Rei", ganhador de Melhor Filme, é, sem dúvida, uma grande obra. Mas o que o diretor Darren Aronofsky fez em "Cisne Negro" é absolutamente incrível e ímpar.


Já "Invasão do Mundo - Batalha em Los Angeles" é um filme que não deve ser levado a sério. Eu quero acreditar que aquilo é, na verdade, uma comédia. Um longa-metragem que se presta ao ridículo de inserir falas como "Talvez eu possa ajudar. Sou uma veterinária!", quando alguém está tentando dissecar um alienígena provoca uma vergonha alheia estratosférica. Me digam: qual a relação da medicina veterinária com extraterrestres?

Aqui em terras tupiniquins temos o péssimo "Cilada.com", que em momento algum se faz parecer um filme. E mesmo que "Bruna Surfistinha" entre para a lista do melhor filme nacional do ano passado, ainda não está perto de ser uma grande obra do cinema nacional, provando que o Brasil precisa mais mentes criativas e menos estrelismo e imbecilidades.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os Smurfs

Eu não lembro da série de TV que ia ao ar nos anos 80 contando a história das pequeninas criaturas azuis perseguidas pelo vilão Gargamel. Mas o carinho demonstrado pelas pessoas que lembram da animação despertou, em mim, a vontade de conhecer os seres de "três maçãs de altura". E digo sem medo de errar: ver "Os Smurfs" (The Smurfs, EUA, 2011) no cinema foi uma das experiências mais divertidas que eu tive na sala escura este ano.

O filme começa apresentando as criaturinhas e o modo como vivem. Gargamel (Hank Azaria) aparece tramando sua maldade predileta: capturar os smurfs. Depois de encontrar a pequena vila invisível, no meio da floresta encantada, o vilão segue Papai Smurf, Smurfete, Corajoso, Desastrado, Ranzinza e Gênio em fuga, que atravessam um portal e vão parar no Central Park, em Nova York. Lá, eles são abrigados por Patrick (Neil Patrick Harris) e sua esposa Grace (Jayma Mays).


Os smurfs e o gato Cruel, companheiro de Gargamel, funcionam muito bem. Além de verossímeis, a direção de Raja Gosnell, experiente em filmar humanos com criaturas digitais em Scoob-Doo, por exemplo, consegue criar uma empatia dos atores reais com os seres virtuais.

As piadas são divertidas. As expressões do gato Cruel são impagáveis e a atuação pastelona de Azaria com seu feiticeiro desengonçado - mas perigoso - é primorosa. Pena que o restante do elenco esteja tão apagado e o filme tenha cenas como aquela em que Patrick joga Guitar Hero com os smurfs: totalmente dispensável.


Ademais, trata-se de um roteiro clichê. Coisa que já vimos em diversos outros longas que centram suas histórias em confusões na Big Apple. Ainda assim, é divertido. Para as crianças, lições de moral, ritmo e agilidade. Para os adultos, referências - extremamente divertidas, devo ressaltar - à clássica cena do vestido de Merilyn Monroe voando pelo vento e à conversa de Gandalf pedindo, a uma mariposa, águias para salvá-lo de Orthanc em "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel".


Descompromissado, "Os Smurfs" é um belo filme-família mais poderoso na missão de fixar uma música na nossa cabeça (o Hino-Smurf) do que a musiquinha dos Pôneis Malditos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2

Quem imaginou um dia que, lá no segundo filme da série Harry Potter, divertido, colorido e pouco perigoso, iriam acontecer coisas importantes para serem desvendadas no sombrio final da história? Essa minha observação não é apenas um elogio à capacidade criativa de J.K.Rowlling, autora do livro que originou a saga. Mas, principalmente, à coesão mantida ao longo dessa década de filmes, que passaram pelas mãos de vários diretores e, mesmo com seus erros e acertos, mantiveram um bom diálogo entre eles.

Neste "Relíquias da Morte - Parte 2", Harry (Daniel Radcliffe), com a ajuda de seus amigos Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), continua a busca pelas horcruxes, objetos que guardam partes da alma do vilão Voldemort (Raph Fiennes), e que são indispensáveis para que o garoto cumpra a missão deixada por Dumbledore (Michael Gambon): matar o temível bruxo das trevas.
Enquanto isso, Hogwarts está sendo atacada pelos comensais da morte, dementadores e gigantes. Do outro lado, os integrantes sobreviventes da Ordem da Fênix, alunos e professores da Escola de Magia, defendem o castelo.

Para começar: ao longo de toda a série, Harry Potter já provou ser uma franquia em franca evolução no uso dos efeitos especiais. Portanto, seria até trivial elogiar, aqui, esse aspecto do filme. Ainda assim, alguns aspectos chegam a tirar o fôlego. O dragão de Gringotes, por exemplo, é muito bem desenhado. Reparem, por exemplo, a opacidade nos olhos da fera: não é preciso nem falar nada para saber que se trata de um dragão cego. Assim como a direção de arte: impecável.
A fotografia do português Eduardo Serra, novamente investindo em tons monocromáticos e melancólicos, enriquece os cenários úmidos e tristes, o céu sempre nublado e a tensão e tristeza emanada pelos vários personagens do longa. A câmera do diretor David Yates nos proporciona visões espetaculares: as gruas usadas na batalha no castelo e as imagens aéreas são épicas e espetaculares.
A trilha sonora de Alexandre Desplat é explêndida: além de pontuar os sentimentos de forma correta ao longo da projeção, o compositor, dessa vez, voltou a usar os consagrados acordes de John Williams, autor da trilha original. Claro, em tons mais tristes e melancólicos, mas, ainda assim, recordando o consagrado tema da saga.
O roteiro de Steve Klovers, novamente, é digno de aplausos. Dispensando, acertadamente, qualquer aprofundamento dos personagens, ou apresentações acerca dos acontecimentos mais recentes, o longa já inicia com ritmo. E, apesar de ser o clímax e conter, predominantemente, cenas de guerra, de ação, as tramas e diálogos fluem, dando espaço para atuações primorosas de diversos atores.

Por falar em atuação, é impossível não registrar a notável evolução de Radcliffe no papel do protagonista, de Grint como seu melhor amigo e de Watson, mais uma vez surpreendente como Hermione. Magie Smith, com sua Minerva McGonagal, se destaca pela demonstração de força, sabedoria, liderança e autoridade. Michael Gambon, como Dumbledore, tem, mais uma vez, a chance de mostrar que conseguiu captar a "alma" do sábio professor (coisa que o ator demorou para conquistar, já que só em "Enigma do Príncipe" o velho deixou de ser agressivo e destoante das descrições de Rowlling acerca do personagem).
E, por fim, Alan Rickman, que assume o papel de Snape, mais uma vez, com excelência. Mas, dessa vez, em destaque, já que ele se mostra uma das figuras mais complexas criadas no universo da escritora britânica.

Longe do tom episódico presente em quase todos os filmes da série, com ritmo e fluidez acertada, atuações excelentes (ainda mais quando recordamos das atuações dos atores-mirins dos primeiros filmes, e que permaneceram até hoje no elenco) e até uma leve crítica a regimes ditatoriais e fundamentalistas (vide os pelotões de estudantes geometricamente organizados em marcha pelos corredores da Escola), "Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2" se revela, sem sombra de dúvidas, o melhor capítulo de todos os filmes da saga. Com alguns problemas, é verdade, mas que não comprometem o conjunto da obra.

Algumas explicações que não são dadas, fatos que não ficam claros e que exigem um conhecimento prévio do livro. Personagens que surgem de repente (Hagrid), algumas consequências naturais de acidentes que não são mostradas (o óculos do Harry nunca quebra). Mas são coisas pequenas diante da grandiosidade do trabalho de David Yates e sua equipe (coisa que Chris Columbus jamais seria capaz de fazer). Harry Potter não é, obviamente, uma obra prima da sétima arte. Mas, nem por isso, deixa de desempenhar um papel importante na história do cinema mundial.