terça-feira, 1 de maio de 2012

Os Vingadores

O mundo realmente precisa de super-heróis. Isso já está mais do que provado, dado a expressiva bilheteria que "Os Vingadores" (The Avengers, EUA, 2012) vem fazendo no Brasil. O longa, dirigido por Joss Whedon, acompanha Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Capitão América (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), Hulk (Mark Ruffalo), Viúva Negra (Scarlett Joahnson) e Nick Fury (Samuel L. Jackson) na luta contra Loki (Tom Hiddleston), irmão de Thor, que promete fazer uma guerra interplanetária na Terra para que todos os habitantes daqui ser curvem aos seus pés. Para isso, os heróis são reunidos na agência S.H.I.E.L.D. a fim de manter nosso planeta a salvo.
Contando com atuações deslumbrantes, o longa se destaca por jamais deixar que a personalidade de cada herói se perca em meio a tantas cenas de lutas e explosões. E essa personalidade é muito importante para que possamos compreender a maneira de cada sujeito agir, assim como nos remete às experiências particulares vivenciadas em cada filme que já contou a história dos heróis individualmente. Isso evita que o filme se torne entediante, pois sabemos os motivos que levam todos à luta.
Assim, Homem de Ferro se mostra como o "playboy, engraçadinho, filantropo"; Capitão América é o típico americano, que, cego pelo patriotismo, adora estar sob ordens, mas também não perde a oportunidade de mandar, sendo pouco pensante; Hulk é o professor inteligente e irritantemente calmo e paciente; só para destacar os mais emblemáticos. 
É preciso destacar, porém, que a primeira meia hora de filme pode ser um tanto desgastante para quem não é nerd e procura o filme somente como uma descontração, ou para visualizar explosões à moda Michael Bay. O roteiro se enche de explicações físico-químicas-biológicas para justificar os fatos que vão preencher as duas horas e 16 minutos de projeção. Isso torna o longa, inicialmente, um tanto massante, visto que as mesmas explicações serão dadas de modo muito mais inteligente adiante e, nessa hora, o expectador começa a se envolver com o filme.
Tecnicamente, o filme é primoroso. Os bons efeitos visuais e as criaturas alienígenas convencem. As cenas de ação são muito bem filmadas, de modo que podemos entender o que se passa, e não somos pegos em um emaranhado de explosões e socos sem entender quem está batendo em quem. O clímax é realmente tenso e os heróis não parecem, em nenhum momento, imunes aos perigos que estão submetidos. E isso é primordial para que a tensão, que há pouco comentei, seja estabelecida.
Apesar das qualidades, "Os Vingadores" é a maior profusão de clichês que eu já pude observar no cinema. Só perde, talvez, para "Transformers" (eu ando citando bastante essa porcaria no blog ultimamente, perceberam?). Mas a comparação não é infeliz, por mais que o primeiro esteja anos-luz à frente - em todos os sentidos - do filme do Michael Bay. E a qualidade do longa permite que os clichês sejam perdoados. Vamos a eles: apesar da tensão que já citei duplamente, jamais nos pegamos temendo pela segurança dos heróis, propriamente. Como já disse: eles não estão incólumes, mas nunca concebemos a ideia de que estão com a vida em risco.
O argumento central do filme também é estapafúrdio. É o mesmo de "Fúria de Titãs 2": briga de família. Loki tem inveja de Thor por ser sempre o melhor por ter adotado um planeta "mais fraco" como casa. Ele quer, simplesmente, governar. É inconsequente e tem a mesma periculosidade do Gargamel, em "Os Smurfs". O que nos põe medo são as criaturas alienígenas que invadem a Terra, jamais o vião principal. As frases de efeito também não soam inteligentes: "O segredo é: eu sempre estou nervoso", diz certo personagem que vocês já devem saber quem é, e que, num mesmo filme, passa da irracionalidade à consciência de equipe em menos de uma hora.
Da mesma forma, logo no começo do longa, Fury avisa sua agente de que o Gavião Arqueiro havia "mudado de lado". Mas poucos sabiam exatamente o que tinha acontecido, inclusive a agente citada. Em nenhum momento ela se perguntou: "Mudou de lado? Tá do lado de quem agora? Porque? O que houve?". É como se ela já soubesse, de antemão, como uma vidente, que um vilão louco atravessaria o espaço para pôr a Terra em risco.
Mas estes detalhes estão longe de tornar "Os Vingadores" um filme ruim. O principal mérito do filme é ser uma bomba popular, um filme de explosões, socos e tiradas cômicas constantes, sem se tornar idiota. Ele não é descerebrado, nem nerd demais, por mais que seja, claramente, feito para estes.
Sem sombra de dúvidas, ele merece essa popularidade boa, e é animador pensar que todo esse estardalhaço esteja a favor de um filme bom, e não mais uma porcaria (repetindo a expressão) "à moda Michael Bay".

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Jogos Vorazes

Uma das premissas que eu levo comigo é a de que um filme dificilmente será bom quando é previsível. Por isso que comédias românticas, por exemplo, são daquele tipo de histórias difíceis de convencer. No entanto, se no meio do caminho a trama se revela instigante e inteligente, o final não se dá como única razão de ele existir; logo, a previsibilidade torna-se, em grande parte das vezes, perdoável.

Confesso que ao entrar no cinema para assistir a este "Jogos Vorazes" (The Hunger Games, EUA, 2012) esperava assistir a mais uma mera febre adolescente, com história morna e final previsível.

Preciso adiantá-los de que eu estava redondamente enganado.

O longa, dirigido por Gary Ross, roteirizado pela autora do original, a norte-americana Suzanne Collins, a partir do primeiro livro da trilogia, conta a história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), uma jovem que se voluntaria a disputar os Jogos Vorazes no lugar da irmã mais nova, que havia sido sorteada. O problema é que, nestes jogos, apenas um dos 24 competidores (um rapaz e uma menina) de cada um dos 12 distritos de Panem (a América do Norte do futuro) volta vivo para casa.

Logo no início já somos apresentados à protagonista. Num primeiro momento, sensível e carinhosa com a irmã caçula. Logo em seguida, destemida e selvagem, quebrando regras, ultrapassando barreiras para, em um local proibido, caçar e treinar para uma possível infeliz convocação aos Jogos.
Apesar de fazer bem a apresentação dos protagonistas, e torná-los mais reais e convicentes (tarefa que merece elogios não só pela forma como o roteiro é construído, mas especialmente pelas ótimas atuações, que falarei adiante), a câmera nervosa, utilizada como recurso nas cenas iniciais, não ajuda em nada na tarefa de nos fazer sentir um pouco de como vivem aquelas pessoas que são mostradas de imediato.
Mesmo sobrevivendo em uma condição miserável, fica claro o quanto é preferível estar ali do que ser sorteado à mortal competição. E mesmo que, naquele momento, a câmera seja usada daquela forma para retratar o desconforto de viver aos trapos e com fome, ainda assim, não convence, pois o que vemos é uma irmã acalentando a outra, em meio a ruínas e a um lugar cinzento e desconfortável, é verdade (o que já é suficientemente incômodo, e dispensaria tal modo de filmar), mas, mesmo diante de tudo isso, acalmando, cantando e levando um pouco de paz e tranquilidade em meio a tanto medo e terror.

Mas esta mesma câmera nervosa é muito bem utilizada em outros momentos do longa, o que contribui de modo fascinante (e nestes casos a câmera poderia retratar isso) para percebermos a forma como os personagens veem e reagem diante das diversas situações do Jogo. Assim, temos vertigens, desespero, pressa, demonstrados em cortes rápidos e uma câmera inquieta.
E já que falamos de cortes rápidos, vale ressaltar a edição do filme, brilhantemente realizada. É graças à competente edição que o filme jamais cansa ou perde ritmo. Pelo contrário: somos tomados de curiosidade e pelo sentimento de urgência, que nos faz querer saber o que está por vir, cena após cena, mesmo que nenhum fato esteja iminentemente claro. O filme, portanto, não ganha um tom episódico, tão comum em adaptações.
Além da câmera e da edição, a edição de som ganha destaque. E todos esses elementos são cruciais para que nos convençamos daquilo que há de melhor em "Jogos Vorazes": a torcida pelos protagonistas. É por nos importarmos com os personagens que o filme ganha o ritmo e a qualidade que tem. E a escolha de filmar, editar as cenas e o som do modo como vemos é de suma importância para que nós não sejamos meros espectadores dos Jogos, mas possamos sentir a aflição e o desespero de quem está lá naquela mata.
Por isso, o fato de termos a visão distorcida, um zumbido agudo incômodo logo após uma explosão, a perda da qualidade da audição depois de outro acidente qualquer, nos faz viver o filme (e, por consequência, os Jogos), entender que não se trata de um jogo adolescente; e, acima de tudo, compreender que é algo urgente e grave, tão banalizado e assustadoramente espetacularizado.

E por falar em espetáculo, aqui entra uma parte pontualmente interessante deste longa: a morte como espetáculo, o ser humano tratado como um animal irracional e incapaz de refletir sobre a grandeza da vida, a avareza e a inimizade plantadas como sendo a arma única de sucesso e o capital como motor desse show de horrores.
Sentimentos que não são demonstrados só na maneira animalesca com que os Jogos acontecem, mas, especialmente, naquilo que vimos da vida real de cada um dos distritos: pobreza, miséria, fome. Um céu cinzento, construções em ruínas; um povo sem objetivo e sem ideal; pessoas sujas caminhantes em ruas de chão batido e sem acesso nenhum a condições mínimas de saúde e sobrevivência, muito menos a tecnologias.
Em detrimento a isso, observamos uma capital esbanjando luxo, cores, tecnologia, limpeza, riqueza e moda. Esta última exravagante, é verdade. Mas quem pode achar aquilo tudo extravagante se sequer são capazes de perceber a crueldade em tomar por diversão a morte de seres humanos?
Neste aspecto, a direção de arte realiza um ótimo trabalho, assim como a equipe de efeitos visuais, que cria os ambientes mostrados em câmera aberta, revelando a capital em planos aéreos. Deste modo, tudo parece muito provável e palpável, mesmo que exagerado. Somos convencidos de que aquela cultura existe, e o modo como tudo é organizado e mostrado nos convence disso.

Mas estes aspectos técnicos de nada valeriam se não tivéssemos atuações à altura. É por isso que Jennifer Lawrence merece todo o reconhecimento possível por conseguir viver Katniss com tanta expressividade. Uma garota tomada por diversos sentimentos, demonstrados muito felizmente e em nenhum momento alterando a personalidade: ela é dura, corajosa, cruel, astuta, mas consegue parecer frágil, em outros momentos se revela doce e sensível, introspectiva e sociável. E mesmo com toda essa alternância, sempre a mesma Katniss, por quem torcemos e nos importamos.
O romance fictício que ela vive com o garoto Peeta (Josh Hutcherson) também é vivido de modo convincente. Mesmo que o sentimento de Peeta pela companheira não seja correspondido, Lawrence não soa falsa nos momentos que diz se importar com o conterrâneo. E a escolha de não estender o romance, colocando-o como coadjuvante da trama é acertada, pois, com isso, o tom alegórico da trama não é prejudicado por apenas mais uma história de amor entre dois jovens malfadados.

E voltando à parte em que mencionei a previsibilidade como ferramenta principal da falta de qualidade da maioria dos filmes, a simples menção, na parte final do longa, de que ele teria um desfecho previsível, me incomodou. Pois eu havia mergulhado no universo de Panem, e repentinamente fui puxado à realidade e percebi que aquilo tudo poderia ser menos encantador do que era. Como adiantei, estava errado. O desfecho está à altura do filme e nos leva a reflexões interessantes que serão esclarecidas na segunda parte da trilogia.

Ainda assim, há erros graves que comprometem a comprensão dos personagens, do local onde se passa a história e dos próprios Jogos.
Katniss, no início do longa, alerta a mãe para não abandonar a filha, como ela supostamente já tivesse feito outras vezes. E realmente sentimentos essa ausência da mãe na cena de abertura, quando vemos as duas irmãs juntas, sem a mãe. A incompreensão da forma como se estrutura a família Everdeen se torna ainda maior quando vemos flashbacks da protagonista com um acidente que teria matado o pai. Em nenhum momento estas lembranças são explicadas de forma convicente, nem há qualquer fala da protagonista que nos diga se ela pensa constantemente no que aconteceu e na maneira como vive sua família. Ela se preocupa com a irmã - sempre -, mas é só isso. Mesmo que este fato venha a ser esclarecido no segundo longa, ficamos com um ponto de interrogação em mente porque não sabemos o que se passa no contexto familiar da protagonista, embora a personalidade desta nós conheçamos muito bem. Mas... porque ela é assim?
Ao contrário, Peeta fala dos seus dramas e do modo como sua família o encara, e isso é muito bom para que as coisas aconteçam do modo como aconteceram e o coração de Katniss se sensibilize ao jeito do conterrâneo.

Mas os principais defeitos estão mesmo na explicação dos Jogos. Quanto tempo eles duram? Onde eles se passam? É um ambiente natural, é construído, é uma espécie de "cidade cenográfica"? Como aquelas criaturas são criadas digitalmente? Qual o limite de interferância que a produção pode exercer sobre os jogos?
Além de não explicar as regras gerais, não conseguimos compreender nem mesmo aspectos referentes ao jogo específico mostrado no filme. Quanto tempo se passou desde que o sorteio foi realizado até o final do jogo?
E mais: porque foi tomado a decisão de fazer os jogos desta forma? O que é feito para que a população não se canse do mesmo formato em mais de sete décadas de existência da competição? O filme também não esclarece em que os Jogos contribuem - além do tocante à alienação pelo entretenimento - para a passividade da população de Panem com a exploração da Capital. E quando vemos uma revolta em um dos distritos, percebemos o quanto a guarda não é suficientemente forte para evitar uma rebelião e, mais que isso, fica-nos a dúvida do porquê só naquele momento, depois de tantas décadas, alguém resolveu se indignar com a situação. Se argumentarem que "nunca havia tido uma rebelião daquelas", então porque o batalhão (se assim posso chamar) é tão pouco reforçado, e só vemos um aumento no número de oficiais depois que a revolta está acontecendo?
São perguntas que ficam no ar, não são respondidas, e desconstroem todo o magnífico trabalho técnico e artístico realizado para que os Jogos se tornem críveis.

Trabalhando aspectos sociológicos, antropológicos e políticos que rendem discussões acaloradas a respeito de situações atuais e de possíveis alegorias infiltradas na história, "Jogos Vorazes" se revela como uma febre adolescente inteligente, e apesar de estar fazendo tanto estardalhaço comercial (nos EUA) como Crepúsculo, jamais se configura tão medíocre como a "saga" dos "vampirinhos" virgens. (Ah! Não são mais virgens, é verdade!).
O segundo filme parece ser bem instigante pelo que foi demonstrado no desfecho dessa primeira parte. Mas não vou esperar pela adaptação cinematográfica. A trilogia me despertou tamanha curiosidade que os originais merecem lugar na minha prateleira de livros.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fúria de Titãs 2

O mais cruel de filmes que ambientam seus roteiros nas histórias da mitologia grega (algo assustadoramente mais comum a cada ano) é o desrespeito total aos contos originais. Parece que estúdios e roteiristas encontram, nas antigas crenças, criaturas e personagens perfeitos para suas produções megalomaníacas e descarregam aí suas histórias pensadas pela metade, numa demonstração de preguiça de criar personagens novos e interessantes.
Assim, a cada novo filme, temos diversas versões de Perseu, por exemplo, um dos grandes filhos de Zeus. Aqui, em "Fúria de Titãs 2" (Clash of the Titans 2, EUA, 2012) ele não tem nenhum superpoder de um semideus, a não ser sua força descomunal e a capacidade de enfrentar criaturas grotescas com uma facilidade previsível e o contato com seres mitológicos a qualquer instante, como o Pegasus. Nesta sequência, o filho predileto do Senhor dos deuses precisa impedir o renascer de Kronos, pai dos três deuses supremos (Zeus, Hades e Poseidon). Ajudado por Hades (Ralph Fiennes), Kronos despertaria depois de ter sugado a força de Zeus (Liam Neeson).
No caminho para cumprir sua missão, Perseu (Sam Worthington) vai lutar com ciclopes, um minotauro e com seu irmão Ares (Édgar Ramírez), que trai Zeus simplesmente porque este prefere Perseu a ele. No meio de uma disputa familiar, o despertar de Kronos pode destruir com todo o universo, dizem.

Ora, na mitologia grega, Kronos não é uma criatura gigantesca irracional composta de lava de vulcão. Ele é representado de forma humana, da mesma forma que os demais deuses.
Outro erro do filme é atribuir à falta de fé dos homens a perda dos poderes dos deuses. De acordo com o argumento do longa, como os humanos não rezam mais aos deuses, estes estão prestes a morrer. E desde quando deuses morrem como se fossem baterias não carregadas? E quem reza a Hades? Porque, sendo ele também um deus, ele não tem a força vital ligada às orações dos mortais?
Além de contrário à mitologia, o filme soa contraditório, já que ele mostra as pessoas rezando aos seus deuses de devoção.

E quando Perseu proíbe seus companheiros de rezar a Ares, dizendo que, assim, ele os encontraria, o filme não explica por que só uma pessoa em toda a Grécia estaria rezando para ele ou o porquê de Ares conseguir identificar que aquela prece tem origem justamente do local onde está seu irmão odiado.

Apesar disso, os efeitos visuais são extremamente bem realizados, a trilha sonora consegue ser parte do filme, jamais sendo intrusiva ou pontuada demais. A fotografia e a direção de arte são eficientes, as cenas de ação muito convincentes e o 3D é o melhor motivo para compensar a ida ao cinema. E arrisco dizer que este filme só vale ser visto se for em 3D.

É uma pena que tanto desastre se justifique apenas por uma mera briga familiar e as criaturas mitológicas sejam utilizadas da forma como convém aos realizadores, jamais justificando porque tamanha afronta aos mitos originais.
 

quarta-feira, 7 de março de 2012

A Dama de Ferro

"A Dama de Ferro" (The Iron Lady, Reino Unido/EUA, 2011) poderia, facilmente, se chamar "Uma Noite com Margareth Tatcher". E se esse título parece menosprezar a intenção e o alcance que o filme pretende ter, ainda assim, não estaria exercendo mal o seu papel como título condizente à realidade do filme.

Num projeto que pretende contar a história da ex-premiê britânica, o que vemos, na verdade, é um excesso de liberdade dramática que apresenta uma personagem real e viva de forma ofensiva. Afinal, é difícil acreditar que a verdadeira Tatcher seja, por si mesma, capaz de curar sua demência, controlar as alucinações e passar noites sem dormir enquanto tem visões do passado.

É incômodo, portanto, perceber que a estrutura narrativa escolhida pelo roteirista Abi Morgan prejudique tanto a linearidade do longa. Isso acaba por nos deixar perdidos. Afinal, por que uma governante tão impopular conseguiu ficar tanto tempo no poder? Em que circunstâncias aconteceu a Guerra das Malvinas? Que acontecimentos motivaram o caos econômico do país?
O roteiro não contextualiza os fatos e os apresenta como mero fruto do acaso. Isso acaba por prejudicar a construção dos personagens, especialmente da protagonista, que jamais têm um perfil definido: afinal, ela é uma mulher forte porque conseguiu quebrar as barreiras de classe e gênero em um mundo dominado por homens (como diz a sinopse oficial), ou é apenas uma mulher mesquinha e inconsequente incapaz de entender as necessidades do seu povo e, por isso, mergulha todos numa realidade dura de sofrimento, altos impostos e desemprego?

Indubitavelmente, "A Dama de Ferro" não pode servir como uma cinebiografia. Mesmo o mais desentendido da história recente da Europa não consegue sentir confiança na maneira como os fatos são relatados. O filme, por fim, acaba se revelando pedestre na tarefa de contar uma história real, e quando parte para a ficção, também o faz de maneira trôpega e ofensiva.

Apesar de tudo, temos Meryl Streep, brilhante em todos os momentos e única responsável por tornar o filme "assistível". Do auge da vitalidade à fragilidade da velhice, os maneirismos, gestos, tom de voz e postura, tudo colabora para que Tatcher seja representada da maneira mais fiel possível. O peso da voz, o sotaque britânico e a mudança gradual no seu timbre (auxiliada por um fonoaudiólogo, por a julgarem estridente demais ao falar), Streep consegue evoluir uma personagem que o roteiro não permite que evolua.
Além de Streep, merecido reconhecimento recebeu a equipe de maquiagem, que auxiliou ainda mais o trabalho da atriz e conferiu à protagonista o aspecto físico ideal para bem representar os diferentes momentos da vida da ex-premiê.

Pena a direção ser tão mal realizada. E o roteiro ser tão simplista e ignorante.


sexta-feira, 2 de março de 2012

A Mulher de Preto

O personagem de Daniel Radcliffe está triste. Na lembrança, o luto pela morte de uma pessoa querida. Tentando tocar a vida, ele entra em um trem partindo para uma cidade longínqua da agitada Londres. Antes de embarcar, porém, ouvimos a frase: "Você tem os olhos da sua mãe". Chegando ao destino, por onde quer que passe, todos olham para ele com espanto e estranheza.

Sim, queridos leitores. A saga de Harry Potter já terminou e nosso querido Radcliffe está tentando seguir com a carreira em frente, tentando provar que ele pode ser ator além de bruxo.

E não. Eu não relatei um trecho de qualquer filme do Harry Potter.

E também não. Não é este "A Mulher de Preto" (The Woman in Black, Reino Unido, 2012) que fará o jovem ator se desvencilhar da imagem carimbada em sua testa de bruxo de Hogwarts; pois, como vocês puderam perceber, o longa é cheio de citações e situações que remetem um filme a outro.

Mas as semelhanças estão somente nos detalhes. Aqui, Radcliffe é Arthur Kipps, um jovem advogado com o emprego em risco por estar rendendo menos na firma onde trabalha. O motivo é a morte da sua esposa, que ocorreu durante o parto do seu pequeno filho.
Para provar sua competência, Kipps é enviado a uma cidade no interior da Inglaterra para cuidar dos documentos de um ex-cliente recém-falecido. O problema é que a cidade vive à sombra da lenda do espírito de uma mulher que, supostamente, é o responsável pela morte das crianças daquele lugar.
Agora, Kipps terá que usar de coragem para realizar seu trabalho com competência e procurar entender o que atormenta o espírito da finada.

A fotografia é muito bela, a edição e mixagem de som são impecáveis e indispensáveis na tarefa de nos causar muitos sustos. E quantos sustos! A direção também é bem realizada, especialmente porque cria um clima de tensão que beira ao insuportável, além de nos prender na trama, levando-nos a - junto com Kipps - tentar descobrir o que está por trás da morte das crianças e por que a mulher do título assombra a cidade.
A direção de arte é incrivelmente bem executada (apesar de ter pensado a casa quase que como uma sósia da escadaria de Hogwarts, inclusive com os quadros bem-emoldurados na parede). Os brinquedos abandonados no casarão assombrado não parecem nem um pouco amigáveis e todos os objetos evocam o gótico.

Apesar de bem executado na parte técnica e ter mentes criativas interessantes na criação dos ambientes, o mesmo não se pode dizer do roteiro. A história poderia, facilmente, se resolver em um curta metragem. É cansativo vermos, por intermináveis minutos, Kipps subindo e descendo as escadas, intercalando com um susto aqui e um clima de tensão ali.
Da mesma forma, embora atormentado com a perda recente da esposa e a desconfiança da existência de fantasmas, Kipps decide trabalhar sozinho, à noite, porque é quando consegue produzir melhor, diz ele. Além de ilógico, é um pretexto clichê para que sejamos tomados por mais alguns momentos de sustos e medinhos.

Medinhos, não! Se não causa uma tensão insuportável em todos os espectadores, pelo menos é inegável a quantidade de sustos que o filme é capaz de nos proporcionar. Ainda assim, é isso que ocupa a maior parte do tempo neste filme, o que empobrece a história, que jamais ganha uma profundidade e uma complexidade palpáveis e não se aprofunda no drama de cada uma das pessoas daquela localidade que convivem com tal assombro por anos.

Desta forma, se for para levar sustos, é mais proveitoso ir a um trem-fantasma. Pelo menos não somos obrigados a aguentar uma história rasa por mais de uma hora e meia com o único propósito de passar um pouco de medo e levar alguns pulos.
Se lá, no trem-fantasma, não tiver Radcliffe, eu assisto Harry Potter depois. Taí um programa mais divertido que "A Mulher de Preto".


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas

Diriam os racistas (enrustidos, claro; como sempre!) que o preconceito contra negros não existe mais. Os pseudo-críticos falariam que é algo que não rende histórias porque há tempo já sabemos que isto é ruim. O que estes grupos ignoram é que o preconceito racial vai muito além do "existe/não-existe", ou do "rende/não-rende". Aqui está em jogo outra série de discussões, tais como igualdade, respeito, compreensão e solidariedade. São reflexões positivas que, parece, muita gente não gosta de sentir ou vivenciar, por isso são tão enfáticos ao criticar obras que cedem generoso espaço a estes tipos de atitudes e sentimentos. E este "Histórias Cruzadas" (The Help/ EUA/ 2011) está cheio deles.

O longa, escrito e dirigido por Tate Taylor, acompanha a tragetória da jornalista recém-formada Eugenia Skeeter (Emma Stone) que, após voltar à sua cidade natal, consegue um emprego no diário local e passa a escrever em uma coluna com dicas de limpeza doméstica.
É aí que ela tem o primeiro contato com Aibileen (Viola Davis), empregada de uma de suas "amigas" da socialite de Jackson, Mississipi, estado sul-americano assustadoramente racista. É esta que lhe empresta algum tempo de atenção durante o dia de trabalho para responder às dúvidas das leitoras da coluna de limpeza.
Mas a sensibilidade de Skeeter fica mais aguçada quando ela se dá pela falta da empregada que havia trabalhado com sua família durante 30 anos e, misteriosamente, se mudara para longe. Com isso, a jovem jornalista decide escrever um livro contando as histórias de cada uma daquelas empregadas negras; sobre a forma que elas eram tratadas e as situações que viviam ao cuidar da casa e dos filhos dos brancos e não poderem, sequer, usar o mesmo banheiro destes.

O primeiro grande trunfo deste longa é o design de produção e direção de arte. O figurino também ganha destaque especial. Mas é a trama que se estabelece como o chamariz principal de "Histórias Cruzadas".
Mesmo precisando de Skeeter como intermediária para que as histórias de cada uma daquelas mulheres se tornem públicas (e é a jornalista, branca, quem tem a iniciativa), o principal exemplo de coragem vem das empregadas, negras, que se arriscam num estado de leis injustas para os negros (que os proibia - até mesmo - de serem tratados como iguais). Arriscam-se ao contar as histórias - nem sempre positivas - acerca de suas experiências profissionais e da forma como eram tratadas.

Como se não bastasse, ainda temos a vilã-mor, vivida por Bryce Dallas Howard, que, num acesso revoltante de cinismo, promove uma campanha para aprovação de uma lei que obrigue brancos a construírem banheiros externos e separados para seus empregados negros no mesmo instante que lidera outra corrente, de arrecadação de fundos em benefício à crianças africanas.

Em certo momento, um personagem diz à Skeeter: "Tudo está bem. Por que criar problemas?". No que a jornalista responde: "Porque o problema já existe". Ou seja, o problema está ali do lado, e para se fazer de solidária, a megera vilã (que está longe de ser caricata) prefere ser uma bem-feitora para crianças do outro lado do Atlântico.

A propósito, por mais vilã que a personagem de Howard seja, por mais cômica que a Minny (de Octavia Spencer, ótima) também seja - apesar dos seus dramas domésticos -, o roteiro é feliz ao destacar, humanizar e dar uma dimensão mais palpável e real acerca da personalidade de cada personagem. Por isso que compreendemos que o preconceito está na alma de uma pessoa, e não é externado unicamente na forma de racismo: a não-aceitação das socialites de Jackson à Celia, a nova-rica do filme, demonstra que, na verdade, aquelas dondocas querem apenas estar entre iguais, sem aceitar as diferenças. E notemos quão sublime é o comportamento de Celia com Minny, a tratando como igual e reconhecendo nesta um valor até então não percebido, muito menos reconhecido, pelas suas antigas patroas.

Pecando apenas por conta de uma personagem (a mãe de Skeeter) que, ao contrário de todos os outros personagens, não tem uma personalidade definida (ela oscila entre momentos de racismo e outros com a mais alta conscientização a respeito da situação dos negros), "Histórias Cruzadas" já é candidato irrefutável a um lugar na minha prateleira de DVDs.
E que me chamem de racista os críticos de cinema que, incapazes de distinguir uma emoção sincera e natural de qualquer ser humano em dadas situações, encaram cenas de despedida e desprezo aos negros como forçassão de barra e melodrama.

Se este fosse um filme "feito para chorar", não haveria comédia, Minny seria estratosfericamente apresentada como uma pobre-coitada incapaz de decidir sobre o seu destino e a narradora da história não seria uma negra.

Já dizia uma senhora - negra - que atendi no cinema estes dias: "A sala está vazia porque as pessoas não gostam de histórias de negros. E ainda dizem que racismo não existe".
O pior é saber que nem críticos de cinema - ditos intelectuais - não querem que este filme seja visto.

Se você não é racista, assista "Histórias Cruzadas".


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os Descendentes

"Os Descendentes" (The Descendantes, EUA, 2011) é a prova do desespero que a Academia, aparentemente, se departou ao elencar a lista de filmes para concorrer à estatueta do Oscar. Ou isso, ou os critérios para a maior premiação do cinema mundial estão realmente falhos.
Não me refiro aos demais indicados (até porque não vi todos). Mas o fato deste novo filme de Alexandre Payne estar na lista dos concorrentes a Melhor Filme me preocupa profundamente. "Os Descendentes" não tem história, nem clímax e nem mesmo boas razões para ser visto. Fraco. Muito fraco.

O longa conta a história do advogado Matt King (George Clooney), que precisa lidar com várias situações tensas que resolveram tomar conta da sua vida de uma só vez: sua esposa, Elizabeth, sofreu um acidente de barco e está à beira da morte no hospital; sua família nutre um relacionamento familiar interesseiro para vender terras que há séculos pertencem à família, e cabe a King a tarefa de assinar a decisão final sobre a venda desse milhonário pedaço de terra; sente-se forçado a estreitar os laços com suas filhas adolescentes problemáticas e, ainda por cima, precisa conviver com a descoberta de ter sido traído por sua quase-finada mulher.

Ambientado no Havaí, o filme é uma adaptação do livro de Kaui Hart Hemmings. Adaptação muito mal feita, por sinal. O filme é mais longo que o necessário e em nenhum momento nos surpreende com uma cena verdadeiramente interessante.
Na primeira parte da projeção, vemos King nos localizando sobre sua vida e sobre seus conflitos atuais. Além de, particularmente, detestar narração em off (a não ser em casos específicos, por entender que um filme é uma obra genuinamente visual, e a narração em off empobrece a história contada no cinema), ela não contribui e soa dispensável, já que as situações descritas pelo protagonista no seu - me permitam definir desta forma - monólogo, soam mais interessantes que todo o restante da fita.
Isso compromete o filme, já que percebemos, logo de início, a falta de criatividade necessária para que o filme siga adiante. Nos 115 minutos intermináveis de projeção, nos deparamos com gags cômicas infelizes, que fazem piada em cima da situação de Elizabeth, com uma perseguição patética pelo amante da enferma. E só.

Apesar de contar com personagens descartáveis - como o "amigo" de Alexandra (Shailene Woodley), filha de King - a única coisa em "Os Descendentes" que faz valer a pena o ingresso é o elenco. As atuações são belíssimas. Desde Clooney, que confere a complexidade necessária ao seu personagem, exibindo sentimentos e comportamentos que o próprio filme não transparece, até a filha do protagonista, vivida por Woodley, que encarna a primogênita de King como uma naturalidade impressionante: por mais que tenha os problemas típicos - e outros agravados pela situação familiar - de uma garota de 17 anos (como a necessidade de um amigo para se sentir mais segura, a busca por mecanismos de fuga, como o álcool, para esquecer dos problemas), exibe uma maturidade fascinante ao ajudar o pai nas suas tarefas - por mais tolas que elas sejam; e aqui não me refiro a decisões tolas do protagonista, mas às decisões tolas que o roteiro faz o protagonista perseguir.

Da direção de Payne, o que resta de bom são as locações, muito bem aproveitadas e que embelezam o longa, além de contrastar com o momento difícil da família King. Mas nem isso ganha notoriedade, já que, com as gags cômicas e a falta de velocidade, os "respiros" que poderiam ser proporcionados pelas cenas com belas paisagens do Havaí tornam-se apenas um objeto de decoração.
Pra piorar, o desfecho não justifica o título, dizendo muito pouco (ou nada) sobre a situação das terras herdadas pela família.

Repito: sorte do filme é ter as atuações que têm. Caso contrário, estaria fadado a virar mero sonífero.